Opinião: Presidência do TSE, Dark Horse e uma prévia da disputa presidencial de 2026. – Por João Felipe Carvalho

O filme biográfico Dark Horse e Kassio Nunes Marques, ministro do STF e presidente do TSE, serão elementos cada vez mais relevantes para as eleições de 2026. No dia 20 de maio o Tribunal Superior Eleitoral determinou como Juizes auxiliares a Ministra Estela Aranha, o Ministro André Mendonça e o próprio presidente do TSE, Ministro Nunes Marques.

No TSE, as ações eleitorais não chegam diretamente ao plenário. Para priorizar a velocidade dos processos durante o período eleitoral, a legislação prevê a atuação de juízes auxiliares, que analisam e decidem inicialmente representações sobre temas pertinentes como propaganda eleitoral e direito de resposta. Apenas em caso de recurso à decisão do juiz auxiliar a discussão é levada ao plenário.

Entre os três processos já distribuídos ao ministro está uma ação do PL contra uma pesquisa AtlasIntel que envolvia o áudio de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, além de parlamentares do PT solicitando apuração de abuso econômico referente ao filme Dark Horse e solicitando suspensão da circulação do filme por se tratar de propaganda política. Esses processos não deixam de ser uma prévia dos conflitos que devem chegar à Justiça Eleitoral nos próximos meses e que devem testar, desde já, a capacidade de resposta do tribunal às disputas que antecedem a campanha presidencial.

Dessa forma, não é surpreendente que um dos primeiros grandes embates eleitorais de 2026 envolva justamente o filme. Se pesquisas eleitorais, propaganda e financiamento sempre estiveram entre os temas centrais da Justiça Eleitoral, Dark Horse reúne a tentativa de influência do eleitor, mobilização vultosa de recursos financeiros e o início de discussões sobre os limites da propaganda política antes do início formal da campanha.

Apesar dos grandes investimentos e da confirmada prioridade de Vorcaro em financiar o filme, conforme vazamento recente do Intercept, (https://www.intercept.com.br/2026/06/02/mais-importante-disparado-vorcaro-bolsonaro/) Dark Horse não deve ter o impacto esperado pelo alto escalão da campanha de Flávio Bolsonaro e do projeto político do bolsonarismo. Impressionados com o recente impacto da sétima arte no imaginário popular, especialmente após o sucesso do vencedor do Oscar “Ainda Estou Aqui”, seus articuladores enxergaram no cinema um espaço onde falta a inserção da extrema direita. A aposta em um longa metragem biográfico, um political thriller que retrata o ex-presidente Jair Bolsonaro como um herói, o azarão – signficado da expressão em inglês dark horse – parece associar o êxito de uma obra à sua capacidade de coletar grandes investimentos financeiros. A realidade é que filmes politizantes não se tornam relevantes pelos recursos angariados, mas pela sua pesquisa, construção narrativa e capacidade de respeitar a memória da sua temática. Até o momento, nada indica que Dark Horse reúna esses atributos. O resultado se assemelha menos a uma obra ambiciosa e mais a uma peça de propaganda cujo custo parece maior do que sua criatividade.

Além disso, o mais provável é que o filme seja, sabendo o que se espera do seu público alvo, um grande fan service, fenômeno tradicional dos filmes de super-heróis que dão ao seu espectador – no caso, aquele que acredita que Bolsonaro seja o herói do Brasil – a sensação prazerosa de vê-lo como tal, sem a intenção de fazer seu consumidor sentir-se provocado ou reflexivo. Também deixa a desejar, pelo que os vazamentos iniciais indicam(https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/05/15/medica-adoradora-de-lula-marxistas-drogados-pilulas-magicas-de-damares-veja-detalhes-do-roteiro-de-dark-horse.ghtml) , em diversos aspectos. Para lá de díspar com a realidade até agora apresentou apenas diálogos mal escritos, além da caracterização risível do Capitão e de seus familiares.

O problema reside mais na mensagem final do que em seu valor eleitoral. Claro, quem produz um filme sempre está controlando a sua própria narrativa, e dessa vez criando um produto que comprova em sua própria natureza esse controle. Portanto, é evidente que o assunto seja levado pelos opositores à apreciação do TSE.

Porém, já se observou repetidamente que não existem limites para o que está ou não está permitido segundo a moralidade do clã Bolsonaro, e que existe muita facilidade em descartar até os apoiadores da extrema direita pela continuidade do plano central. Assim, a questão passa a ser outra: se o filme contar com um final feliz para o seu público-alvo, qual será ele?

Flávio como presidente democraticamente eleito? Bolsonaro como mártir? Ou a reabilitação de um projeto político à la Geisel, Médici e Castelo Branco, que convida a população a retomar a tentativa do execrável de 8 de janeiro?

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Editor Ourinhos Online