A hesitação – Por Paula Hammel
Ontem apaguei uma palavra e não escrevi outra em seu lugar.
O espaço ficou vazio durante alguns segundos. A tela permaneceu acesa; o cursor continuou a piscar com a paciência de quem ignora a aflição alheia. Meu polegar aproximava-se, recuava e voltava a aproximar-se, como se esperasse licença de alguém que nunca responderia.
Enquanto corrigimos, ainda supomos governar o texto. A hesitação, porém, revoga essa autoridade sem fazer ruído. A palavra permanece onde sempre esteve — ou precisamente onde deixou de estar —, mas já não obedece ao gesto que, até um instante antes, parecia suficiente para conduzi-la.
Isso não sucede diante de qualquer frase. Acontece apenas quando, por descuido ou vaidade, confiamos às palavras um peso que elas talvez nunca tenham prometido suportar.
Nunca escrevi para confirmar uma certeza. As certezas sempre me pareceram criaturas de pouca resistência. Chegam prontas em excesso, como certos elogios cuja rapidez já constitui motivo de cautela. Recebo-as da mesma forma com que se recebe uma porta aberta em hora imprópria: não pelo que revela, mas pela facilidade com que se oferece. Escrever obriga-me ao trabalho inverso. Desmonto cada convicção, retiro-lhe as aparências e espero. Se, ao final, ainda conservar algum peso quando a última palavra já não puder protegê-la, talvez merecesse existir desde o princípio.
Jamais soube explicar por que escrevo apenas no celular. Existe uma resposta prática; respostas práticas, contudo, costumam satisfazer quem pergunta, nunca quem responde. Seguro o texto nas mãos como quem examina um objeto delicado, até perceber, com discreto desconforto, que talvez seja o objeto a examinar-me. Não há mesa, solenidade ou distância entre mim e a frase – apenas uma tela pequena. As palavras nascem exatamente onde os polegares conseguem alcançá-las. Ignoro se isso lhes acrescenta qualidade. Sei apenas que lhes retira qualquer ilusão de grandeza.
Foi numa noite comum que uma frase recusou o lugar que eu lhe havia destinado.Voltei a ela diversas vezes. Substituí uma palavra, restituí a anterior, eliminei ambas. O restante da crônica aceitava as alterações com a docilidade das coisas que nada têm a perder. Aquela frase, porém, permanecia imóvel. Não resistia às mudanças; limitava-se a sobreviver a todas elas.
Apaguei-a.
Prossegui a leitura.
Na manhã seguinte, procurei a frase antes mesmo de abrir o arquivo.
Não a encontrei.
Ainda assim, foi a única que continuou a escrever-me.
Paula H’ammel
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