Entre a Maçaneta e a Caneta – Por Paula Hammel
Minha mão parou na maçaneta.
Não me lembro de ter decidido parar. Lembro apenas do metal frio sob os dedos e da estranheza de perceber que o gesto seguinte, tão simples, não acontecia.
Bastava girar.
Bastava abrir a porta.
Bastava sair.
Mas minha mão permaneceu ali.
Esperei que obedecesse.
É curioso o verbo que escolhi. Obedecesse a quem?
Naquela manhã, não fiz essa pergunta. Talvez porque certas perguntas só existam depois que alguma coisa acontece. Sorri da demora, como se o corpo tivesse direito a seus pequenos caprichos e não fosse preciso interrogá-lo por isso. Girei a maçaneta. Fechei a porta atrás de mim. Desci.
Horas depois, fui assaltada.
Durante muito tempo, pensei que a lembrança daquele dia fosse o assalto. Era o que parecia natural. O medo, a rua, o instante em que alguma coisa se rompe e o mundo, por um segundo, deixa de ser aquilo que era.
Mas não é isso que me lembro.
Quase não me recordo da rua.
O susto perdeu os contornos. Algumas imagens desapareceram inteiramente, como se nunca tivessem estado ali.
O que permaneceu foi a mão.
A mão imóvel sobre a maçaneta.
É estranho o modo como a memória escolhe.
Conserva o instante em que nada aconteceu e deixa escapar justamente aquilo que, segundo todas as regras, deveria importar.
Talvez seja porque a memória não guarde os acontecimentos. Talvez guarde o que neles não conseguimos compreender.
O assalto aconteceu.
A mão, não.
E, no entanto, é a mão que ficou.
Sempre que volto àquela manhã, não encontro primeiro a rua, nem o homem, nem o medo. Encontro a mão. Depois a maçaneta. Só então a porta se abre, o elevador chega, a rua reaparece e o resto da história, obediente, ocupa o lugar que lhe pertence.
É como se a memória insistisse em começar alguns segundos antes de mim.
Anos mais tarde, outra mão me chamou a atenção.
Estava sobre uma mesa, ao lado da prova que eu ainda não decidira fazer. Segurava a caneta, mas sem firmeza.
Não havia medo.
Havia algo pior.
Havia uma lógica.
Uma lógica tão inteira, tão razoável, que parecia quase uma falta de inteligência enfrentá-la. Eu dizia a mim mesma que os outros estavam mais preparados, que o esforço deles terminaria onde o meu começava, que algumas derrotas se deixam reconhecer antes mesmo de acontecer.
Eu acreditava nisso.
Ou quase.
Ainda hoje me impressiona a serenidade daqueles argumentos. Não gritavam. Não exageravam. Não prometiam desastres.
Tinham a voz das coisas sensatas.
Por pouco, devolvi a caneta à mesa.
Em vez disso, comecei a escrever.
Não me lembro do primeiro que escrevi. Talvez porque certas decisões desapareçam no instante em que são tomadas e só muito depois percebamos que, naquele momento, alguma coisa em nós mudou de lugar.
Durante muito tempo, pensei que essas duas mãos contassem a mesma história.
Hoje já não sei.
A primeira quase me impediu de sair.
A segunda quase me impediu de entrar.
Talvez não falassem a mesma língua. Talvez nenhuma delas falasse. Talvez eu é que precise, tantos anos depois, atribuir palavras ao que o corpo fez antes que eu pudesse entendê-lo.
Ainda penso naquela primeira mão.
Não sei se tentou me proteger.
Não sei se apenas hesitou.
Não sei sequer se existe diferença entre as duas coisas.
Há momentos em que o corpo parece saber aquilo que a consciência ainda não alcançou. Mas também há momentos em que o corpo apenas repete um medo que não sabemos nomear.
O que me inquieta não é ter sido assaltada.
É ter parado antes.
Por alguns segundos, minha mão soube ficar.
Depois, eu a fiz sair.
Anos mais tarde, diante de outra porta, outra mão quase me fez ficar.
Dessa vez, porém, eu a movi.
Talvez seja isso que ainda me prende àquela manhã: a sensação de que, entre uma maçaneta e uma caneta, alguma coisa em mim aprendeu a não obedecer tão depressa.
Não sei se aprendeu a escolher.
Talvez tenha aprendido apenas a demorar.
Paula H’ammel
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