“Taxi Driver”: 50 anos do clássico de Scorsese — Por Bruno Yashinishi

Lançado em 1976, Taxi Driver, de Martin Scorsese, permanece como um estudo incômodo sobre alienação, violência e a construção de narrativas em uma sociedade urbana em crise. Ambientado na Nova York do pós-Guerra do Vietnã, o filme articula, com precisão formal, a trajetória de Travis Bickle (Robert De Niro), um ex-fuzileiro naval que transforma sua insônia em rotina ao volante de um táxi.

Desde o início, Travis não é apenas um indivíduo deslocado, mas alguém incapaz de interpretar o mundo ao seu redor sem distorcê-lo. A cidade que ele percorre — marcada por sujeira, prostituição e marginalidade — é menos um retrato objetivo e mais uma extensão de sua própria percepção. Nesse sentido, a proposta estética de Scorsese, frequentemente associada a um estado quase onírico, não serve apenas ao estilo, mas à construção subjetiva da narrativa.

O roteiro de Paul Schrader evita explicações fáceis para a deterioração mental do protagonista. Em vez disso, apresenta uma sequência de frustrações que revelam sua incapacidade de estabelecer vínculos. É nesse ponto que Betsy (Cybill Shepherd) se torna central: mais do que um interesse romântico, ela representa uma tentativa de inserção em um mundo organizado, politizado e aparentemente funcional. Ao trabalhar na campanha do senador Palantine (Leonard Harris), Betsy encarna uma ideia de normalidade que fascina Travis. No entanto, o encontro entre os dois evidencia um abismo. A escolha de levá-la a um cinema pornográfico não é apenas um erro social, mas um sintoma de sua incapacidade de compreender o outro como sujeito autônomo.

Já sua relação com Iris (Jodie Foster), uma adolescente explorada pelo cafetão Sport (Harvey Keitel), é construída sob uma lógica igualmente problemática. Travis projeta sobre a jovem uma necessidade de redenção que diz mais sobre si mesmo do que sobre ela. Iris, por sua vez, resiste parcialmente a esse enquadramento, o que tensiona a narrativa e impede uma leitura simplista de salvamento.

Ao longo do filme, a violência deixa de ser uma possibilidade distante e passa a ser tratada como solução. O acesso facilitado a armas, mediado por figuras periféricas como o traficante conhecido como “Marcha Lenta”, não é apenas um detalhe narrativo, mas um elemento que evidencia a banalização desse recurso dentro daquele contexto. O treinamento físico de Travis e sua preparação meticulosa reforçam a ideia de que sua ruptura não é impulsiva, mas construída.

O clímax, marcado por um surto violento, sintetiza as contradições do filme. A sequência, crua e desconfortável, não busca glamourizar o ato, mas tampouco oferece um julgamento direto. A reviravolta final — na qual Travis é alçado à condição de herói pela imprensa — desloca o foco da ação para sua recepção. O que poderia ser interpretado como um colapso individual passa a ser ressignificado como ato de coragem, sugerindo uma crítica à forma como a sociedade enquadra e consome a violência.

A trilha sonora de Bernard Herrmann, concluída pouco antes de sua morte, acompanha esse percurso com uma combinação de lirismo e tensão, evitando conduzir emocionalmente o espectador de maneira previsível. O resultado é uma ambiência que oscila entre introspecção e ameaça constante.

Cinco décadas depois, Taxi Driver não se sustenta apenas como retrato de uma época, mas como uma reflexão ainda pertinente sobre isolamento, masculinidade e a fragilidade das mediações sociais. Ao invés de oferecer conforto ou resolução, o filme insiste em um olhar incômodo — e talvez seja justamente nessa recusa em apaziguar que reside sua permanência.

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Editor Ourinhos Online