História recontada: Movimento traduz a saga da imprensa alternativa nos anos de chumbo Por João Teixeira

A morte do jornalista Raymundo Rodrigues Pereira, editor dos jornais alternativos Opinião e Movimento, reacende reflexões sobre a resistência da imprensa durante a ditadura civil-militar brasileira (1964–1985). Figura central do jornalismo independente, Raymundo ajudou a construir veículos que enfrentaram censura, perseguição e repressão em um dos períodos mais sombrios da história do país.

O jornalista Mouzar Benedito relembra, em depoimento emocionado, os bastidores e os desafios de fazer imprensa alternativa em meio aos “anos de chumbo”.

“Conheci o Raymundo Pereira quando ele era editor do Movimento. Eu já o admirava muito antes. Naquela época, eu trabalhava no Versus, mas fizemos reuniões conjuntas para enfrentar a ditadura, as ameaças e as ações práticas com que ela tentava nos destruir”, recorda Mouzar.

Ele também lembra de uma contribuição marcante ao jornal: “A primeira entrevista da Cora Coralina publicada em um jornal fora de Goiás foi feita por mim e saiu no Movimento”.

Já nos anos 1990, durante a criação do jornal Brasil Agora, ligado ao PT, Mouzar voltou a trabalhar ao lado de Raymundo. “Achei que ele fosse bronquear quando levei dois litros de cachaça para o fechamento da edição, madrugada adentro. Mas ele não só bebeu alguns goles como mostrou um ótimo humor. Virou tradição nos fechamentos”, conta, em tom descontraído.

Segundo Mouzar, além da competência e do compromisso político reconhecidos por todos, Raymundo era também um excelente companheiro de trabalho. “Tenho muitas histórias divertidas dele, mas precisariam de muito espaço para serem contadas”, diz.

As manobras de Sérgio Motta

Outro personagem lembrado no relato é Sérgio Motta, que atuava como tesoureiro do Movimento antes de se tornar ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso.

De acordo com Mouzar, Sérgio Motta tinha habilidade para se relacionar com empresários que financiavam discretamente o jornal. “Eles ajudavam com dinheiro, mas exigiam sigilo absoluto. Temiam represálias da ditadura, como perseguições fiscais e pressão militar sobre suas empresas”, relata.

A motivação, segundo ele, era pragmática. “Era quase uma compra de indulgência. Muitos empresários temiam que, em caso de revolução, fossem executados por apoiar o regime. Então queriam testemunhas de que ajudavam jornais de esquerda secretamente.”

Mouzar afirma que essa rede de apoio desapareceu com o fim da ditadura e a chamada transição democrática. “Sem punição aos ditadores e seus aliados, os empresários deixaram de temer uma revolução e interromperam as colaborações.”

A trajetória de Raymundo Rodrigues Pereira permanece como símbolo da resistência jornalística e da luta pela liberdade de expressão em tempos de censura e autoritarismo.

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Editor Ourinhos Online