ET TU, ALCOLUMBRE? – E A TRAIÇÃO POLÍTICA COMO VIA DE SALVAÇÃO DE PRIVILÉGIOS Rodolfo Fiorucci

“Et tu, Brute?” (Até tu, Brutus?), disse Júlio Cesar a Brutus, seu filho político, quando este lhe deu a última facada diante da traição do Senado que culminou no assassinato da figura mais proeminente da história romana, dentro do Senado, com 23 facadas. Após essa desestruturação política, a República romana foi destruída, iniciando a fase do poder autoritário dos imperadores – período que levaria à queda do maior império que o ocidente já presenciou.

​A política adora a traição, mas despreza os traidores. Em Roma, Marco Antonio, discípulo de Júlio Cesar, perseguiu e matou todos os responsáveis pela traição – menos Brutus que se suicidou ao ser cercado. No Brasil, 2070 anos depois da traição a César, o Senado protagonizou um dos ataques mais brutais à estabilidade institucional alicerçada pela Constituição de 1988, ao roubar do presidente da República o direito de indicar um ministro do Supremo Tribunal Federal. Pode parecer algo menor, mas foi a primeira vez, em 132 anos, que isso ocorreu.
​Lula não foi traído apenas por Alcolumbre, mas há indícios de traição até de aliados próximos, como Jaques Wagner. Nos bastidores de Brasília, já se diz que Rodrigo Pacheco, o apaniguado de Alcolumbre para o STF, também estaria em vias de trair o presidente da República, desistindo de concorrer ao governo de Minas Gerais. O centrão, com figuras como Ciro Nogueira, Antonio Rueda e Alcolumbre, e a extrema direita, com figuras como Sóstenes Cavalcanti e tantos outros, temerosos sobre o avanço das investigações de corrupção, convergem suas peças no tabuleiro para se unirem todos contra a reeleição de Lula. Quando peças com indícios severos de corrupção se unem para atacar o outro lado, o que se pode interpretar?
​Estamos diante da escalada de mais um degrau para a morte da democracia brasileira, seguindo minuciosamente os passos indicados pelos professores de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em seu livro “Como as Democracias Morrem”. O ataque às instituições democráticas brasileiras já perfaz quase duas décadas, tendo intensificado suas ações desde a eleição do ex-presidente e agora presidiário, Jair Bolsonaro. Este, nos primeiros meses de seu governo já indicava um plano de desestabilizar o STF para ter a maioria de ministros na corte suprema e “governar para sempre”, segundo denúncia da senadora Soraya Thronicke.
​Não cabe aqui enumerar todos os atos que culminaram na tentativa de golpe de Estado, em 8 de janeiro de 2023, do qual participaram inúmeras figuras de diferentes instituições brasileiras (desde militares, passando por parlamentares, até policiais federais), mas indicar que, assim como em Roma, a destruição do Estado de Direito é a forma que o parlamento encontrou para atender a seus anseios e caprichos pessoais. Se em Roma, os senadores traíram Cesar para garantir a manutenção e expansão de seus privilégios, no Brasil, o parlamento traiu Lula com o mesmo objetivo, plano que veio se fortalecendo desde a descoberta dos casos de corrupção no INSS e com o Banco Master, em que muitos políticos do campo da centro-direita estão imersos até o pescoço, como confirmou o presidente do PL (partido do pré-candidato Flávio Bolsonaro).
​Embora viventes da era da pós-verdade, em que os fatos são irrelevantes e o que importa é a narrativa que se quer acreditar, a população não pode negar que ambos os casos – INSS e Master – foram descobertos, investigados e encerrados sob a gestão do governo Lula (goste-se ou não dele). E no Brasil, se há um risco efetivo de destruição das instituições, é quando há risco de que os membros das instituições sejam pegos em seus atos criminosos. Nesse caso, para protegerem seus interesses, essas pessoas optam por destruir o país, desde que seus feudos não sejam alterados.
​A traição a Lula, no Senado, com pelo menos uma dezena de facadas (votos) inesperadas – já que os votos bolsonaristas já eram negativos antes mesmo de avaliar se Messias tinha capacidade técnica, algo que nem eles mesmos negaram -, teve a coordenação de Davi Alcolumbre, que tem aliados seus no Amapá na mira da polícia federal por conta do Caso Master. Para garantir a salvação de todos os políticos envolvidos nesses atos de corrupção, parece certo que Alcolumbre fechou acordo com Flávio Bolsonaro. Em troca dos votos para redução de pena do pai (medida que vai beneficiar mais de 200 mil criminosos no país), Flávio se uniu ao “centrão” (direita fisiológica) para proteger todos os potenciais corruptos investigados, numa união que visa impedir a reeleição de Lula.
​Se o senado Romano sabia se unir para trair a República e o povo para proteção própria, no Brasil, mais de dois milênios depois, o parlamento brasileiro sabe fazer o mesmo. O governo petista não interessa aos donos do poder, pois tende a ser republicano e respeitar o funcionamento pleno das instituições, o que ameaça o convescote dos privilégios do poder. A Advocacia Geral da União, o Ministério Publico Federal, a Polícia Federal, a Controladoria Geral da União e a Auditoria Fiscal não podem funcionar livremente para que a torneira da corrupção tenha a boca cada vez mais larga. Com a entrada das Bets no cenário e da resistência da direita em regular as Fintechs – algo que ficou claro quando o deputado Nikolas Ferreia criou a fakenews sobre a taxação do PIX, pois a medida de verificação de PIX impediria lavagem de dinheiro -, o crime organizado encontrou cenário perfeito para elevar seu padrão e poder na república, algo que o governo petista desestabilizou.
​As facadas de traição em Lula e na República, comandadas por Alcolumbre (tendo Flávio Bolsonaro como aliado), sinalizam para a queda da República brasileira e a construção de um poder autoritário. No entanto, o Brasil não é o maior império do Ocidente (como era Roma) e esse caminho só aponta para um futuro certo: a derrocada da soberania nacional e a entrega das últimas riquezas que restam ao povo brasileiro (parte da Petrobras e as terras raras) para os interesses internacionais. O povo finalmente começou a entender o que significa privatizar bens nacionais, com os preços cada vez mais altos em energia, água, pedágios etc, mas o poder de disseminação de mentiras em redes sociais obscurece a capacidade de leitura da realidade por grande parte da população.
​A morte da democracia brasileira está cada vez mais evidente, segundo os alertas de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Desde as emendas secretas (que retiraram do executivo o poder e o direito legal de executar o orçamento), passando pela corrupção do judiciário e o golpismo continuado dentro do parlamento (câmara e senado), o Brasil, que tem o potencial de ser uma das grandes potências mundiais, apequena-se e se entrega ao neocolonialismo. Na Roma antiga, o resultado foi a destruição daquele império (no qual obviamente os plebeus foram os que mais sofreram); qual destino o Brasil terá, povo brasileiro?

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Editor Ourinhos Online