Por Luiz Bosco — Romper as instituições não é mudar o Brasil
Há um cansaço em relação às instituições que representam a política para boa parte da população, como Câmara e STF. Isso se justifica em parte porque não foram estabelecidas apenas para atender aos interesses da população, mas, principalmente, dos grupos que detêm poder e capital.
Não é de hoje que se dissemina um sentimento ou ideia de que o rompimento institucional seria necessário, isto é, uma reinvenção dessas instituições. Fala-se de fechá-las e concentrar o poder nas mãos de figuras que estariam dispostas a começar algo novo.
Um dos problemas está nessa concentração de poder. Uma autêntica mudança política e institucional é aquela que vem da massiva vontade popular e coloca ao povo no poder. As propostas que ecoam por redes sociais e propaganda política podem até falar de “povo” em abstrato, mas o que defendem é apenas o rompimento institucional para concentrar o poder nas mãos de um grupo político. Ou melhor, de uma família.
Os candidatos da família Bolsonaro alimentam essa crença há décadas. Com suas origens no militarismo ditatorial, defendem “fechar o STF”
“matar uns 30 mil” —
https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/573673/noticia.html?sequence=1&isAllowed=y
— Jair Bolsonaro cumpre pena por seu papel central na trama golpista de 8 de janeiro de 2023.
Colocam-se como “antissistema”, mas vivem às custas da política desde a década de 1980.
Defendem o rompimento institucional, algo diferente de uma autêntica mudança. Quando as regras do jogo são simplesmente ignoradas, impera o vale-tudo, uma situação de anomia em que o mais forte se impõe. Já não há mais garantias, ou contrapesos, apenas a violência institucional, simbólica e de fato.
O bolsonarismo tem interesse apenas em concentrar poder e beneficiar os seus. O rompimento institucional que propõem e representam apenas serviria para a retirada de quaisquer freios às suas ações e interesses.
Críticas e pedidos de mudança nas instituições políticas são legítimas. Precisam de amplo diálogo para que ocorram de forma a realmente atender os interesses da população, incluindo as minorias que a compõem. Somente com o respeito à democracia e segurança institucional esse diálogo é possível, pois nos dá a garantia de que os diversos setores da sociedade possam se expressar e ser ouvidos. Com o rompimento prometido pelo clã Bolsonaro, o que teremos é o silenciamento do povo.
As eleições desse ano representam a escolha entre lutarmos por uma democracia melhor ou permitir que ela simplesmente já não exista.
Luiz Bosco Sardinha Machado Jr. é psicólogo e palestrante.
