Setembro Amarelo e os riscos do individualismo – Luiz Bosco

Fala-se mais abertamente de saúde mental hoje em dia, graças a muitos fatores, incluindo mobilização e ações como a do Setembro Amarelo. Contudo, gostaria de alertar para alguns pontos.

Vivemos um momento histórico em que o individualismo se agudiza. Nas mais diversas esferas da vida, da educação à religião, o discurso de busca individual por sucesso e felicidade é hegemônico. Incentiva-se os cuidados pessoais, baseando-os no consumo de objetos, serviços e percepções.

Cuidar-se tem se tornado sinônimo de comprar. A satisfação pela aquisição é colocada como recompensa frente aos desgastes e frustrações do viver. Sua duração pode ser tão efêmera a ponto de se dissipar quando pagamos a fatura, ou nos chega ao conhecimento que aquele bem já está obsoleto. E isso não se aplica apenas a coisas.

Cercamo-nos por bugigangas, canais de assinatura, suplementos alimentares, redes sociais, academia de ginástica. Depositamos toda nossa esperança de encontrar algum sentido empilhando adornos no eu. Somos deuses aos quais oferecemos os produtos de uma vida de trabalho sem sentido.

Os ídolos têm pés de barro e a angústia, condição existencial que pode ser amarga e companheira ao mesmo tempo, quebra nosso frágil suporte construído sobre coisas passageiras, pasteurizadas, produzidas em série. Feitas para a individualidade, ao mesmo tempo que são totalmente indiferentes às pessoas e sua singularidade.

Quem não atinge o nirvana da aparência e das fotos felizes se sente no limbo dos fracassados. Não foi forte, disciplinado e empreendedor o suficiente. Cuidado aqui, pois há um outro risco, presente até mesmo no discurso de quem critica esse individualismo neoliberal.

A exaltação de estar só

Vem se disseminando o discurso da exaltação do estar só. Defende-se que uma pessoa verdadeiramente resolvida não precisaria de companhia; o outro é apenas um empecilho para seu bem-estar e autodesenvolvimento.

Dizem que quem não suporta a solidão é porque não tem nada de interessante em si mesmo, ou alguma besteira do tipo.

Aliás, não se fala em solidão, e sim, solitude. Um galicismo que denominaria o estar só por escolha própria.

Não me surpreende isso ser exaltado por quem defende a ideologia neoliberal do empreendedorismo individual. Fico espantado de ver isso ser disseminado por pessoas que sabem, acredito eu, que as imposições sociais, econômicas e ideológicas nos empurram para condições de vida nas quais a margem de escolha é muito pequena.

Pode ser confortável tentar se convencer de que o estado solitário é o melhor dos mundos, mas essa condição nos tem sido imposta por uma racionalidade voltada a nos fazer cada vez mais isolados, menos coletivos e mais sujeitos à sedução da propaganda e do consumo.

Estabelecemos simulacros de companhia, consumindo “inteligências artificiais” que “conversam” com a gente e estabelecendo formas de se relacionar em que o outro é só um objeto sexual (pois afeto é cafona).

Temos mais apreço por um super-herói de gibi, sabendo tudo das inúmeras versões de sua vida, do que por alguém de nossa convivência.

Precisamos falar de coletividade

A pessoa que está em sofrimento sente-se cada vez mais sozinha, pois ela se vê como a errada por estar assim e por se queixar da solidão.

Se realmente queremos falar de prevenção ao suicídio, teremos que rever séria e profundamente esses valores.

Sair desse individualismo é admitir que, para construir coletividade, precisamos aceitar que o outro não será uma cópia de nós, de nossos gostos e valores.

É preciso admitir que o isolamento está fazendo mal a todos nós e não há problema nenhum em sentir necessidade de se estar com outras pessoas.

Para esse Setembro Amarelo, precisamos mais que palavras de conforto; precisamos de espaços e momentos de coletividade presencial, nos quais possamos nos expressar, incluindo as nossas angústias.

Luiz Bosco Sardinha Machado Jr. é psicólogo e palestrante.

Editor Ourinhos Online