Não somos mais o país do futebol. E agora? – Por Mauricio Saliba
A Copa do Mundo terminou e, mais uma vez, a seleção brasileira ficou distante do protagonismo que durante décadas pareceu natural. A cada partida, a expectativa era a mesma: em algum momento surgiria o brilho que encantou o mundo e fez do Brasil uma referência incontestável no futebol. Esse brilho, porém, não apareceu. Em seu lugar, vimos seleções antes consideradas coadjuvantes exibirem organização, talento e competitividade. A pergunta que resta é inevitável: e agora?
Durante muito tempo, acostumamo-nos a acreditar que o Brasil era, por definição, o país do futebol. Esse título funcionava como uma espécie de patrimônio simbólico nacional. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, crises econômicas, serviços públicos precários, o futebol servia como uma “compensação emocional”. A cada quatro anos, renovava-se a esperança de mostrar ao mundo que, apesar de todas as nossas dificuldades, ainda éramos os melhores em alguma coisa.
Não era raro que um brasileiro, ao viajar para o exterior, fosse imediatamente associado ao futebol. Raramente éramos lembrados pela qualidade da educação, pela inovação tecnológica, pela igualdade social ou pela excelência de nossas instituições. Nossa identidade internacional estava muito mais ligada aos dribles de Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo ou Ronaldinho do que aos indicadores que realmente medem o desenvolvimento de uma sociedade.
Talvez essa seja a maior perda. Não apenas a de títulos, mas a de uma narrativa confortável que mascarava problemas muito mais profundos. Enquanto comemorávamos conquistas esportivas, continuávamos convivendo com uma realidade em que milhões de brasileiros não tinham acesso ao saneamento básico, à educação de qualidade ou a um sistema de saúde digno. O futebol não criava esses problemas, evidentemente, mas muitas vezes ajudava a desviá-los do centro do debate público.
Curiosamente, muitos dos países que hoje superam o Brasil dentro de campo jamais precisaram fazer do futebol sua principal fonte de orgulho nacional. São reconhecidos pela qualidade de suas universidades, pela eficiência de seus serviços públicos, pela capacidade de inovação, pela segurança, pelo desenvolvimento científico ou pelos elevados índices de qualidade de vida. O sucesso esportivo aparece como consequência de sociedades organizadas, e não como compensação por suas deficiências.
Talvez o fim da ilusão de sermos eternamente os melhores no futebol possa produzir um efeito positivo. Quem sabe seja o momento de redirecionar nossas ambições coletivas. Em vez de buscarmos reconhecimento apenas pelos cinco títulos mundiais, poderíamos desejar ser conhecidos pela excelência de nossas escolas, pela redução da desigualdade, pelo fortalecimento da democracia, pelo investimento em ciência e tecnologia e pela qualidade de vida de nossa população.
Ser reconhecido como um dos países menos desiguais do mundo certamente seria uma conquista muito mais significativa do que levantar outra taça da Copa. Universalizar o saneamento básico, oferecer educação pública de excelência, reduzir a violência, combater a pobreza e criar oportunidades para todos são vitórias que permanecem muito depois do apito final.
Talvez, pela primeira vez em muito tempo, deixar de ser “o país do futebol” nos obrigue a responder uma pergunta muito mais importante: que país queremos ser? Se essa reflexão produzir mudanças reais, a derrota em campo poderá representar, paradoxalmente, o início de uma vitória muito maior fora dele.
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