O “sistema”: um inimigo conveniente – Por Maurício Saliba

Já ouviu alguém dizer: “o sistema não deixa”? Ou ainda: “o sistema manda no país”? Essas frases se tornaram quase um bordão no debate público contemporâneo. Funcionam como uma explicação pronta para tudo: da corrupção à desigualdade, das decisões judiciais às mudanças culturais. Ela se sustenta exatamente por não ter definição nenhuma. Afinal, quem é esse “sistema” ?

O curioso é que, quando perguntadas, muitas pessoas não conseguem definir com clareza o que estão criticando. O “sistema” vira uma espécie de entidade abstrata, um inimigo invisível que pode ser moldado conforme a conveniência de cada discurso. Para alguns, ele está no Supremo Tribunal Federal; para outros, no governo, na mídia ou nas grandes empresas. Há ainda quem o veja como uma conspiração global, envolvendo ideologias ou grupos específicos. Nesse cenário, o termo deixa de esclarecer e passa a obscurecer.
Essa indefinição não é inocente. Um inimigo difuso tem uma vantagem estratégica: ele não pode ser facilmente identificado, nem responsabilizado de forma concreta. Serve como válvula de escape para frustrações legítimas, mas também como instrumento de simplificação de problemas complexos. Ao atribuir tudo ao “sistema”, evita-se o esforço de compreender as estruturas reais que organizam a sociedade.
Se quisermos ir além do senso comum, é preciso nomear com mais precisão aquilo que está em jogo. O que muitos chamam genericamente de “sistema” é, na verdade, o modo de organização econômica e social predominante: o capitalismo. Não se trata de uma conspiração secreta, nem de um plano oculto de dominação ideológica, mas de uma lógica estruturante que orienta decisões políticas, culturais e econômicas.
O capitalismo opera a partir de um princípio central: a busca pelo lucro. Esse princípio atravessa instituições, práticas e relações sociais. Ele influencia desde a produção cultural até as decisões jurídicas, passando pela organização do trabalho e pelas políticas públicas. Ignorar isso e substituí-lo por teorias conspiratórias pode ser reconfortante, mas impede uma análise crítica mais consistente.
Tomemos como exemplo a indústria cultural. É comum ouvir que novelas, filmes ou músicas estariam “destruindo valores” ou “manipulando comportamentos”. No entanto, uma análise mais cuidadosa mostra que esses produtos são, antes de tudo, mercadorias. Seu objetivo principal não é doutrinar, mas gerar audiência e, consequentemente, lucro. Se determinados conteúdos são produzidos e difundidos, isso ocorre porque encontram público e retorno financeiro. Trata-se menos de um projeto ideológico centralizado e mais de uma dinâmica de mercado.
O sistema capitalista não apenas explora o trabalho, mas também o próprio corpo, transformando-o em fonte de lucro. A erotização, a liberdade sexual, o culto à beleza e à saúde deixam de ser apenas expressões de liberdade e passam a alimentar mercados inteiros, da estética à pornografia. Assim, o “sistema” não reprime o corpo: ele o estimula, padroniza e comercializa, convertendo desejos em consumo. O resultado é uma forma de controle mais sutil, em que a aparência de liberdade sustenta a lógica de exploração econômica.
O mesmo vale para instituições como o Judiciário. Frequentemente acusados de agir por motivações ideológicas simplistas, tribunais e órgãos jurídicos operam dentro de uma lógica institucional que, historicamente, tem forte relação com princípios liberais. Decisões sobre questões trabalhistas, por exemplo, muitas vezes refletem a tensão entre direitos sociais e interesses econômicos. Reduzir isso a uma suposta “dominação do sistema” sem qualificação analítica empobrece o debate.
Isso não significa negar que existam desigualdades, injustiças ou formas de dominação. Pelo contrário: elas são reais e profundamente enraizadas. Mas compreendê-las exige mais do que slogans. Exige reconhecer que vivemos em uma sociedade estruturada por relações econômicas complexas, que influenciam instituições, comportamentos e valores.
Ao transformar o “sistema” em um inimigo genérico, corre-se o risco de despolitizar a crítica. Em vez de identificar mecanismos concretos de poder, como a concentração de riqueza, a precarização do trabalho ou a influência econômica sobre decisões políticas, recorre-se a explicações vagas que pouco contribuem para mudanças efetivas.
E já que gostam tanto de culpar o “sistema”, vale ao menos acertar o alvo: é o sistema capitalista, com sua lógica implacável, que produz desemprego quando cortar custos aumenta lucros, que pressiona e desestrutura famílias ao submeter a vida à instabilidade permanente, que estimula o consumismo enquanto empurra milhões para o endividamento. É esse mesmo sistema que trata o meio ambiente como recurso descartável, aprofundando a crise climática, pressionando a produção de alimentos e encarecendo o custo de vida. E, como se não bastasse, alimenta-se de juros elevados, mecanismo que, sob o discurso técnico do combate à inflação, acaba beneficiando grandes grupos econômicos enquanto sufoca o restante da sociedade. Mas claro, é mais fácil continuar falando de um “sistema” misterioso do que encarar o funcionamento concreto desse aqui.

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Editor Ourinhos Online