Escola cívico-militar: especialistas alertam para risco de doutrinação pela violência e erosão do ambiente escolar
Compartilhe
Episódios recentes em São Paulo e no Paraná expõem o caráter autoritário do modelo cívico-militar e reacendem o debate sobre o papel da escola como espaço de acolhimento, diversidade e desenvolvimento humano.
Duas situações graves registradas nas últimas semanas reacenderam a discussão sobre as escolas cívico-militares, modelo defendido por setores da extrema-direita como suposta solução para os desafios da educação pública no país. Os casos ocorreram em São Paulo e no Paraná e, segundo especialistas e movimentos da área da educação, revelam o caráter autoritário e potencialmente perigoso da presença militarizada dentro de instituições de ensino.
PMs armados em escola infantil após denúncia envolvendo desenho de Orixá
Em São Paulo, uma denúncia feita por um policial militar após sua filha de quatro anos produzir um desenho de um Orixá — conteúdo previsto no currículo escolar — terminou com a entrada de PMs armados dentro de uma escola de educação infantil. Entre os agentes havia policiais portando armas longas, incluindo metralhadora.
A presença ostensiva dentro do ambiente destinado a crianças pequenas gerou forte indignação da comunidade escolar e resultou em uma manifestação popular contra a militarização das escolas. Para moradores e familiares, o episódio evidenciou que a presença policial dentro de instituições de ensino amplia riscos e tensiona um espaço que deveria ser de segurança emocional, acolhimento e formação crítica.
No Paraná, vídeo mostra estudantes cantando música com apologia à violência
Enquanto isso, no Paraná, viralizou nas redes sociais um vídeo em que estudantes de uma escola cívico-militar são obrigados a cantar uma música que menciona como “missão” entrar em favelas e “deixar corpos no chão”. A letra, que faz apologia explícita à violência e à discriminação contra populações pobres, gerou repúdio de entidades educacionais e de direitos humanos.
Para especialistas, o caso escancara o risco de doutrinação ideológica dentro de escolas militarizadas — algo que contradiz o discurso dos defensores do modelo, que alegam combater a “doutrinação” que inexistente nas escolas regulares.
Contexto: cortes na educação e a ascensão do discurso militarizante
A defesa da escola cívico-militar ganhou força especialmente após o período pós-2016, marcado por cortes de verbas, ataques à educação pública e desvalorização de professoras e professores. Como resposta aos problemas agravados na própria gestão federal da época, surgiram projetos como “Escola Sem Partido” — criticado por especialistas por tentar censurar conteúdos e silenciar debates — e, mais tarde, o modelo cívico-militar, que passou a receber recursos para remunerar policiais militares alocados dentro das escolas.
Educação não é quartel
Entidades educacionais apontam que a imposição de disciplina pela força, a vigilância excessiva e a lógica hierárquica militar ferem a função da escola. “A escola deve ser um espaço de construção de inteligência, autonomia e controle emocional. Não um ambiente de medo”, afirmam representantes de organizações ligadas à infância e juventude.
Para professores, psicólogos e pedagogos, tanto o episódio de São Paulo quanto o do Paraná reforçam um alerta antigo: militarização não resolve problemas estruturais — como falta de investimentos, formação docente, estrutura adequada e políticas de acolhimento — e ainda ameaça transformar ambientes educativos em espaços de coerção e violência simbólica.
Construindo um futuro com mais humanidade
Para especialistas ouvidos por movimentos sociais, a solução para os desafios da educação não está na militarização, mas no fortalecimento de políticas educacionais que promovam equidade, inclusão, acolhimento e formação cidadã. “A escola deve preparar crianças e jovens para a vida, para o exercício da liberdade, da justiça e da dignidade — nunca para a violência”, afirmam.
Apoie o Ourinhos.Online⬇️
https://apoia.se/ourinhosonline
