A roda Por Paula Hammel

O mundo gira, e sempre surge alguém disposto a inflamar discórdia. Não por convicção, mas por fome de agitação. Alguns despertam sedentos de conflito como outros de oxigênio. Sem ele, cada instante pesa, parece estéril, vazio.

A contenda move-se como vento entre cortinas cerradas: levanta poeira, dispersa papéis, provoca tosses. Não altera, porém, a arquitetura do espaço. Quem a instiga não busca solução; deseja reação. Quer sentir que ainda interfere, antes que o tempo demonstre uma verdade incômoda: nada sobrevive ao ruído que fabricamos.

O planeta, enquanto isso, permanece alheio. Calçadas se enchem de passos invisíveis, murmúrios se esvaem, edifícios devolvem reflexos de uma rotina que não pede licença. Nada se transforma porque alguém gritou mais alto. Nada avança porque outro escolheu trincheira. O caos, autônomo, instala-se isolado, silencioso, autossuficiente. Alimenta-se exclusivamente de si próprio.

Sempre há plateia. Pessoas se aglomeram como quem observa fagulha prestes a consumir madeira seca, torcendo para que o incêndio cresça. Chamam isso de opinião. Quase sempre, trata-se apenas de necessidade: reconhecer-se no tumulto alheio, sentir relevância, justificar presença entre ecos incompreensíveis.

Você já sentiu essa exaustão? O que verdadeiramente esgota não é a algazarra, mas a atenção que lhe destinamos. Ouvir, responder, calcular, explicar — tarefas que drenam sua energia e memória sem retorno visível. Seu corpo curva-se, sua mente adormece. Ao final, resta apenas cansaço. Nenhum confronto se resolveu.

Observei demais para ainda me impressionar. A indignação tem prazo breve, memória frágil. Ressurge com igual intensidade vazia. Hoje explode, amanhã evapora, depois retorna com o mesmo peso, idêntica cadência. O ciclo nos conforta precisamente porque exige pouco: refletir consome força; reagir acontece sozinho.

O equívoco, contudo, não está em quem fala, mas em quem se deixa conduzir, em quem acredita que responder equivale a compreender. Nosso corpo obedece, nossa boca reproduz padrões. De repente, você descobre que nada foi decidido. Vocábulos transformam-se em correntes presas a mãos invisíveis que não perdoam.

Talvez o engano não tenha sido imiscuir-se. Talvez tenha sido crer que dominaríamos aquilo que se instala ao redor. Certas estruturas não cedem ao silêncio. Elas se infiltram, replicam-se, ocupam cada brecha, prolongam o amanhã como mera extensão do ontem. Até que a liberdade vire lembrança distante.

Abandonar a roda, então, exige coragem. É preciso atravessar ruas sem olhar para os gritos, passar por salas carregadas de opiniões como quem atravessa tempestade sem abrigo. Somente assim você respira, sujeito apenas ao próprio ritmo — errático, irregular, verdadeiro.

Ontem vi um homem que fez exatamente isso. Cruzou a praça enquanto todos debatiam o resultado do jogo; os olhos fixos no horizonte. Não correu, não discutiu, não justificou. Apenas seguiu. Provavelmente nem soubesse que eu o observava. Talvez nem se importasse.

O mundo continua girando.
A contenda persiste.
Mas há quem avance em linha reta, sem aguardar aplausos, sem explicar o próprio silêncio.

Esses seguem mais longe. Mesmo que ninguém note.

Compreendem, por um instante fugaz, que o planeta poderia parar se quisesse.

E não sentiria falta de nada.

Nem mesmo de nós.

Paula H’ammel

Apoie o Ourinhos.Online⬇️
https://apoia.se/ourinhosonline

Editor Ourinhos Online