J.J. – Por Paula Hammel

 

Se me perguntassem de onde veio a lembrança, eu não saberia responder. As recordações não anunciam a chegada. Aparecem. Às vezes bastam duas letras.

Foi o que sucedeu comigo.

Andando os olhos por velhos papéis, encontrei um retrato. Voltei-o. No verso havia apenas estas iniciais: J.J.

Conheci esse homem.

Não o estimava. Também não o detestava. Entre a estima e a aversão existe uma vasta província onde se instala a maior parte das relações humanas, e foi ali que o coloquei durante muitos anos. Ainda assim, aquelas duas letras produziram em mim um movimento singular. Não de afeto. Antes uma inquietação antiga, dessas que julgamos mortas e que apenas dormem.

J.J. tinha um modo particular de estar entre as pessoas. Enquanto os outros falavam, ele escutava. Enquanto os outros se mostravam, ele reparava. Não era um espírito expansivo nem daqueles que se impõem pela palavra. Ao contrário, parecia viver um pouco afastado das coisas, como se ocupasse um lugar secundário no espetáculo da vida. Talvez por isso visse certos detalhes que escapavam aos protagonistas.

Recordei primeiro os seus olhos.

Depois veio o resto.

Uma luz breve, semelhante à explosão de um flash. O ruído de uma tesoura cortando papel. E, por fim, uma capela.

Vi-a inteira.

As flores dispostas ao longo da parede, os conhecidos reunidos em grupos discretos, as conversas abafadas pela conveniência. Os gestos medidos. A solenidade de ocasião.

Era um velório.

Não direi de quem. Os mortos têm direito à mesma discrição que os vivos raramente lhes concedem.

O curioso é que nada daquilo me impressionava. Nem as flores, nem os discursos, nem o próprio morto. Quando hoje procuro reconstruir aquela tarde, a imagem que regressa não é a da cerimônia, mas a de uma menina sentada entre os adultos ali presentes.

A diferença talvez pareça pequena ao leitor; para mim não foi.

As crianças costumam olhar. Esta observava, seguia os movimentos das pessoas com uma atenção tão firme que chegava a causar desconforto. Enquanto os outros cumpriam os deveres da tristeza, ela parecia ocupada em outra tarefa. Não contemplava o acontecimento, examinava os que o cercavam.

Muitos anos decorreram antes que eu percebesse a semelhança: a menina possuía o mesmo olhar de J.J. Não digo os mesmos olhos. Os olhos mudam menos do que os homens imaginam. Refiro-me ao olhar, que é outra coisa. Havia em ambos a mesma disposição silenciosa de procurar, por trás das aparências, algo que os demais não viam ou preferiam não ver.

Hoje já não me recordo das palavras pronunciadas naquela tarde. Não saberia reproduzir uma única homenagem. Perdi a sequência dos fatos. Confundo datas, rostos e vozes de propósito.

Entretanto, vejo ainda a menina, com uma nitidez que o tempo, por algum capricho, recusou apagar. Seu olhar permanecia voltado não para o acontecimento, mas para aqueles que o atravessavam.

Aqueles homens e mulheres acreditavam participar de um acontecimento importante, não suspeitavam que, passados alguns anos, restariam apenas fragmentos dele. Um gesto. Um silêncio. Um olhar.

Foi então que entendi por que a fotografia me perturbava: ela não conservava apenas uma imagem; conservava um olhar.

Guardei o retrato entre as páginas de um livro e fechei-o.
Depois fiquei algum tempo contemplando o volume sobre a mesa.
A fotografia mostrava sempre as mesmas coisas: uma praça, uma árvore, um banco. Reconheci cada detalhe. Reconheci também a mulher sentada diante da câmera.Tudo permanecia no lugar e, no entanto, alguma coisa faltava.

Durante muito tempo imaginei que o esquecimento consistisse em perder as lembranças. Enganei-me.

Há lembranças que permanecem intactas, conservam os lugares, os objetos e os rostos. Nada lhes falta.

Quem falta somos nós. Foi isso que percebi naquela noite.

Eu conhecia aquela tarde. Conhecia-a perfeitamente.

Apenas já não encontrava o homem que um dia estivera dentro dela.

Paula H’ammel

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Editor Ourinhos Online