Traficante do PCC usou heliponto do Palácio dos Bandeirantes para ir a jogo no Morumbi, aponta investigação
A utilização de uma estrutura oficial do governo do Estado de São Paulo por um integrante do crime organizado acendeu um alerta entre autoridades e investigadores. Um suspeito ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) usou o heliponto do Palácio dos Bandeirantes para se deslocar até o Estádio do Morumbi, onde assistiu a uma partida do Campeonato Paulista.
O caso veio à tona durante a Operação Contaminatio, deflagrada pela Polícia Civil nesta segunda-feira (27), que investiga a infiltração da facção em administrações públicas municipais. A apuração é conduzida pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (DISE) de Mogi das Cruzes.
Autorização rápida e suspeita
De acordo com documentos da investigação, a liberação para o uso do heliponto ocorreu em cerca de seis horas. O processo teria sido viabilizado por meio de contatos políticos acionados pelo suspeito, evidenciando, segundo os investigadores, o acesso do crime organizado a estruturas do Estado.
O ocupante da aeronave foi identificado como João Gabriel de Melo Yamawaki, preso em março de 2026 no Tocantins, acusado de envolvimento no transporte de aproximadamente 500 quilos de cocaína vindos da Bolívia. Ele já era alvo de investigações anteriores e chegou a ser considerado foragido.
Segundo a polícia, Yamawaki teria acionado o ex-vereador de Santo André, Thiago Rocha de Paula, para intermediar a autorização. Mensagens obtidas indicam que o político afirmou ter contato dentro da Secretaria de Desenvolvimento Regional capaz de agilizar o pedido. Há suspeita de participação de um assessor ligado à pasta.
Como justificativa oficial para o pouso, foi apresentada a informação de que o helicóptero transportava uma suposta delegação japonesa — versão considerada falsa pelos investigadores.
Governo e posicionamentos
O episódio ocorreu durante a gestão do então governador João Doria. Procurado, Doria afirmou não ter responsabilidade direta sobre o controle do heliponto.
“Eu não controlo o heliponto. Nem precisa de autorização do governador para fazer uso. Quem deve responder é a Casa Militar do Governo de São Paulo”, declarou.
Até o momento, a Casa Militar não se manifestou.
Esquema mais amplo
A investigação aponta que o caso não é isolado. A Operação Contaminatio indica um plano estruturado do PCC para ampliar sua influência sobre o poder público, especialmente em prefeituras do interior e da Grande São Paulo.
Entre os métodos identificados estão:
* financiamento de campanhas eleitorais;
* inserção de aliados em cargos estratégicos;
* criação de uma fintech para gestão de receitas públicas, possibilitando lavagem de dinheiro com aparência legal.
A Justiça já determinou o bloqueio de mais de R$ 500 milhões em bens e ativos ligados aos investigados, além da expedição de mandados de prisão e busca em diversas cidades do estado.
Pressão política e riscos institucionais
O caso também repercute no atual governo de Tarcísio Gomes de Freitas. Para investigadores, o episódio do heliponto simboliza o avanço do crime organizado para além das atividades tradicionais, atuando com estratégia empresarial e influência política.
O relatório policial classifica o episódio como “surpreendente” e aponta que ele evidencia “o alcance da infiltração do crime organizado no poder público e o risco às instituições estatais”.
As investigações seguem em andamento.
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