Trump, Venezuela e o petróleo: uma relação geopolítica além do discurso antidrogas
A relação do governo Donald Trump com a Venezuela esteve longe de ser orientada prioritariamente pelo combate ao narcotráfico, como frequentemente sugeria o discurso oficial norte-americano. Embora a retórica da “guerra às drogas” tenha sido mobilizada de forma recorrente para justificar sanções, pressões diplomáticas e tentativas de isolamento internacional do governo de Nicolás Maduro, a análise concreta da política externa dos Estados Unidos no período revela que o eixo central do conflito sempre foi o petróleo e o controle geopolítico sobre uma das maiores reservas energéticas do mundo.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, e sua política de nacionalização do setor, aliada a alianças estratégicas com países como Rússia, China e Irã, sempre representou um obstáculo aos interesses históricos dos Estados Unidos na região. As sanções impostas durante o governo Trump afetaram diretamente a estatal PDVSA e o comércio internacional de petróleo venezuelano, evidenciando que o objetivo principal era estrangular economicamente o país e forçar uma mudança de regime, mais do que combater redes internacionais de tráfico de drogas.
Essa seletividade torna-se ainda mais evidente quando se observam outros casos na América Latina. Durante o governo Trump, os Estados Unidos mantiveram relações estreitas com governos aliados que, posteriormente, foram associados de forma direta ao narcotráfico. O caso do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, aliado estratégico de Washington e condenado anos depois nos EUA por envolvimento com o narcotráfico, ilustra a tolerância norte-americana com regimes alinhados geopoliticamente, independentemente de seu envolvimento com o crime organizado. O problema, portanto, não é o tráfico em si, mas quem controla o território, os recursos e as alianças internacionais.
O mesmo padrão pode ser observado na relação com o México. Apesar de ser amplamente reconhecido que grande parte da cocaína consumida nos Estados Unidos entra pelo território mexicano, nenhuma medida comparável às sanções impostas à Venezuela foi adotada contra o governo mexicano. Ao contrário, manteve-se uma cooperação diplomática e econômica estável, reforçando a percepção de que o discurso antidrogas opera como instrumento político seletivo, e não como critério universal de política externa.
Nesse contexto, a posição brasileira revela-se relativamente coerente. O Brasil, especialmente por meio de sua tradição diplomática, não assume uma defesa ideológica do governo Maduro, reconhecendo os problemas políticos e institucionais da Venezuela. Ao mesmo tempo, sustenta o princípio da soberania nacional e rejeita intervenções externas, sanções unilaterais e tentativas de mudança de regime impostas de fora. Trata-se de uma postura alinhada ao direito internacional e à tradição do Itamaraty, que busca equilibrar crítica política e respeito à autodeterminação dos povos.
Em síntese, a política de Trump em relação à Venezuela confirma que o cerne do conflito não está no narcotráfico, mas no petróleo, na geopolítica e na recusa venezuelana em se submeter à lógica de dependência histórica imposta pelos Estados Unidos à América Latina.
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