Tic-Tac ( Por Paula Hammel)
Evito (sendo delicada) ficar na mesma sala que um relógio de parede. No entanto, nem sempre foi assim. Durante anos aquele objeto permaneceu na parede sem que eu lhe desse atenção.
Quase nunca o notava. Ficava preso à parede da sala como ficam tantas coisas da casa: silenciosas, constantes, quase invisíveis. A vida seguia ao redor dele. Conversas, passos, manhãs comuns que começavam sem pressa.
Naquele tempo, o relógio confundia-se com o silêncio.
Só mais tarde percebi seu “som”.
Não lembro o dia exato. Guardo apenas a lembrança na qual a atenção, por algum motivo, se deteve naquele ritmo antigo que sempre esteve presente.
Tic. Tac.
No início pensei que fosse impressão passageira. Continuei conversando, como se aquele compasso pudesse voltar ao fundo da sala. Mas não voltou. O som seguia regular, insistente. Cada batida parecia anunciar a seguinte.
Foi então que entendi que alguma coisa havia mudado.
Naquele mesmo instante, outras pessoas no recinto provavelmente não tenham percebido nada. O relógio pendurado na parede, obediente ao mesmo ritmo de antes. Para elas, creio eu, nada era novo.
Para mim, tudo.
Por algum período imaginei tratar-se de um simples incômodo, uma implicância não lá muito importante. Após estudos autodidatas e consulta médica: eureka! A palavra que descreve essa reação vinda do inferno: misofonia.
A palavra explica o “infernômeno”, mas não traduz inteiramente o que se passa com o quem o tem.
O carinha ponteirudo permanece exatamente igual.
Pros outros.
Tic. Tac.
A cadência não muda. O volume também não. De qualquer forma, depois que a atenção reconhece aquele compasso, ignorá-lo se torna quase impossível.
Ah, permanecer na mesma sala que o “papagaio” marcador do tempo se torna difícil!
Enquanto isso, o dito cujo continua adornando a parede.
Eu, a “diferentona”, é que saio de cena.
Paula H’ammel
Apoie o Ourinhos.Online⬇️
https://apoia.se/ourinhosonline
