Sabe o calor insuportável, as tempestades assustadoras e a seca que devora vidas que estás sentindo? Pois é: não te contaram, mas só vai piorar.

O perigo do negacionismo climático Por Mauricio Saliba

A cada ano, somos “surpreendidos” por novas calamidades climáticas no Brasil e no mundo, como se enchentes bíblicas, incêndios infernais e ondas de calor que derretem até a boa vontade fossem acontecimentos exóticos, raros, dignos de atenção jornalística porque “ninguém poderia prever”. Claro, exceto toda a comunidade científica das últimas cinco décadas. Mas é sempre mais confortável agir como se a natureza estivesse apenas “de mau humor” ou um acontecimento natural.

De fato, não há mais dúvidas: o clima está mudando, e não é por causa de alinhamento planetário, castigo divino ou “ciclo natural” inventado em grupos de WhatsApp. É consequência direta da ação humana, especialmente da forma genial com que organizamos nossa economia: extrair ao máximo, produzir ao máximo, jogar fora ao máximo e repetir. Um sistema tão eficiente que conseguiu, em pouco mais de dois séculos, bagunçar o equilíbrio climático que levou milhões de anos para se formar. Um recorde e tanto.

E aqui entra o personagem principal da nossa trama: o capitalismo, essa máquina absurdamente voraz e deletéria que, por séculos, acreditou que os recursos naturais eram infinitos. Quem poderia imaginar que um planeta redondo tinha limites? Acreditava-se piamente que a Terra era uma espécie de almoxarifado mágico: você tira, tira, tira… e continua cheio. Nesse clima de fantasia, setores inteiros cresceram sem freio, e nenhum brilhou tanto quanto a indústria automobilística, rainha absoluta do “progresso”. Ela gerou empregos, movimentou cadeias produtivas, impulsionou cidades inteiras… e, de quebra, ajudou a entupir a atmosfera com gases que nos trouxeram até aqui. Mas quem liga? Era pelo desenvolvimento!

A crise climática, porém, insiste em estragar a festa. Ela mostra, sem nenhuma delicadeza, que crescer infinitamente num planeta finito não é exatamente uma boa ideia. Cidades lotadas de carros, ar irrespirável, congestionamentos que duram mais do que relacionamentos, tudo isso virou parte da rotina. Mas seguimos fingindo que é só uma “fase”.

E quando olhamos para os dados, a ironia aumenta: segundo o Circularity Gap Report, apenas 6,9% de tudo o que produzimos retorna à economia. Ou seja, mais de 90% vira lixo, poluição ou poeira cósmica de consumo inútil. Produzimos como se estivéssemos abastecendo dez planetas. Reutilizamos como se estivéssemos vivendo numa austeridade exemplar. Uma obra-prima da irracionalidade organizada.

Diante disso, surge a pergunta que não quer calar: mesmo com tudo isso acontecendo, como explicar os negacionistas? A resposta é simples: porque eles são extremamente úteis. Para que o capitalismo siga funcionando como se nada estivesse acontecendo, é essencial negar a mudança climática, ou pelo menos negar que ela tenha qualquer relação com o sistema econômico que move o mundo. Afinal, se admitirem isso, precisam admitir também que talvez fosse necessário mudar alguma coisa. E mudar o sistema? Nem pensar. É mais fácil mudar o clima.

Assim, grandes empresas investem milhões em pesquisas “alternativas”, estudos “independentes”, cientistas que nunca foram “neutros” e campanhas “informativas”. Tudo muito bem pago para dizer o que se quer e com o vergonhoso objetivo de plantar dúvida. A regra é simples: se você não pode contestar os fatos, confunda as pessoas. A mídia comercial depende dos anunciantes, e quem paga, manda. A grande mídia jamais aponta o dedo para o sistema capitalista: prefere culpar a “ganância individual”, como se fossem apenas pessoas más, e não uma lógica inteira, destrutiva, construída para transformar tudo em lucro. Assim, o sistema sai ileso, enquanto o problema vira sempre “desvio de caráter”.

Logo, as dúvidas convenientemente cultivadas ganham manchetes, entrevistas, comentaristas… e chegamos ao resultado final: a fábrica de negacionistas em escala industrial.

E aí aparece o grande protagonista secundário dessa história: o negacionista comum. Esse personagem fascinante acredita estar “se libertando da manipulação”, enquanto repete palavra por palavra o discurso produzido pelos maiores manipuladores do planeta. Diz que é contra “as elites”, enquanto defende justamente as empresas bilionárias que lucram com o caos ambiental. Posta vídeos dizendo que “a ciência mente”, enquanto cita alguma teoria retirada do porão digital de alguém que nem sequer terminou o ensino médio, mas fala com convicção. O negacionista acha que é lobo solitário, quando na verdade é o cordeiro mais obediente da boiada informacional. E, além disso, acha que professores e cientistas são os verdadeiros conspiradores na sua lunática lógica do perigo do “sistema”.

E o mais irônico: enquanto defende com unhas e dentes um sistema que o usa como massa de manobra, também será vítima das mudanças climáticas, talvez até mais intensamente do que aqueles que ele acusa de serem “alarmistas”. O planeta não tem preferência política.

No fim das contas, negar a crise não impede que ela avance. Mas ajuda, e muito, a impedir que façamos algo a respeito. É por isso que o negacionismo é tão valioso para os grandes capitalistas: enquanto a população discute que “esse calor não parece normal”, eles continuam operando tranquilamente um sistema que transforma catástrofe em lucro e destruição em oportunidade de negócio. A crise climática é real. Mas o negacionismo é que convence e anestesia as pessoas simples e permite que esse sistema siga fora de controle.

No fim das contas, talvez o velho Marx tivesse mais razão do que muitos gostariam de admitir. Quando ele dizia que o socialismo poderia surgir “por bem ou por mal”, talvez não imaginasse que o “mal” viria na forma de colapsos climáticos, cidades submersas e temporadas de incêndios eternas. Mas a ironia histórica é irresistível: depois de séculos de capitalismo voraz, talvez não reste alternativa além de repensar radicalmente nossa forma de produzir, consumir e existir. Não por romantismo revolucionário, mas por pura necessidade biológica.

Se o socialismo, ou qualquer modelo que coloque a vida acima do lucro, não vier por convicção, virá pela simples exigência de sobrevivência. Porque, ao contrário das fake news, o planeta não negocia. E a humanidade, querendo ou não, terá de escolher entre transformar o sistema ou ser engolida por ele.

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Editor Ourinhos Online