Quando o samba rompeu o silêncio: como a Sapucaí expôs a censura disfarçada de transmissão

Por Redação Ourinhos.Online

O desfile da Acadêmicos de Niterói não foi apenas uma apresentação carnavalesca. Foi um acontecimento político, cultural e comunicacional. Na avenida mais televisionada do país, um enredo assumidamente popular e político atravessou as câmeras da maior emissora brasileira sem pedir licença — e foi justamente aí que se revelou o conflito: entre o Brasil que se apresenta e o Brasil que se tenta esconder.

A estética da periferia, do sindicalismo, da migração nordestina e da luta social não apareceu como metáfora suave ou alegoria neutra. Veio frontal, direta, sem a maquiagem habitual que transforma a cultura popular em produto exportável. Estrelas vermelhas, gritos de “sem anistia”, referências explícitas à trajetória de Lula e às políticas sociais ocuparam o espaço simbólico da Marquês de Sapucaí, historicamente domesticado para agradar jurados, patrocinadores e a lógica televisiva.

A reação da transmissão foi tão visível quanto constrangedora. Sob o pretexto de neutralidade jornalística, a narração fragmentou o desfile em imagens soltas, desprovidas de contexto e significado. Não se contou a história. Não se explicou o enredo. Não se nomearam os símbolos. A narrativa foi esvaziada para que o conteúdo político se tornasse ruído visual — uma tentativa de reduzir um discurso coletivo a um amontoado de fantasias coloridas.

Artistas que representavam personagens centrais da história narrada — como Lula, Dona Lindu e Marisa Letícia — desfilaram sem identificação. Celebridades presentes para prestigiar o enredo foram ignoradas. A transmissão evitou construir qualquer fio narrativo coerente, como se o silêncio fosse capaz de dissolver o sentido político do espetáculo.

O mulungu que virou “apenas uma árvore”

Um dos momentos mais simbólicos do desfile foi a alegoria “Do alto do mulungu surge a esperança”, que retratava a infância nordestina de Lula, marcada pela seca, pela migração e pela precariedade. A árvore, símbolo de abrigo e sonho, ocupava o centro do carro alegórico, cercada por esculturas que mesclavam fauna nordestina e imagens da pobreza estrutural brasileira.

Na transmissão, tudo isso foi reduzido a uma descrição técnica: “uma árvore no carro alegórico”. Nenhuma palavra sobre migração, fome, infância roubada ou esperança popular.

O mesmo ocorreu com a comissão de frente, intitulada “O amor venceu o medo”, que encenava o golpe institucional de 2016, a prisão política e a retomada democrática. Bastava descrever o que se via: a tomada da faixa presidencial, sua devolução pelo voto e a restauração simbólica da soberania popular. Mas a transmissão preferiu o vago, o neutro, o inofensivo.

O que não podia ser dito

Nos carros que abordavam políticas públicas, os nomes desapareceram. Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, ProUni, Luz para Todos e programas de combate à fome foram transformados em abstrações genéricas sobre “inclusão social”. O legado virou conceito vazio. A política virou paisagem.

Na alegoria da “Ascensão Operária”, os elementos metálicos e industriais — referência direta à classe trabalhadora — foram tratados apenas como escolha estética. A luta virou decoração. O conflito virou design.

O resultado foi uma tentativa de despolitizar um desfile que nasceu político. Um esforço para transformar uma narrativa histórica em espetáculo neutro. Uma operação que lembra outros tempos da comunicação brasileira: quando silenciar era mais eficaz do que proibir.

Um carnaval que não pede permissão

Ainda assim, algo escapou ao controle. A plateia reagiu. Os gritos atravessaram os microfones. Os “L” nas mãos dos foliões surgiram nas câmeras. A emoção não coube na edição. Mesmo sabotado, o enredo se fez entender.

O que desfilou na Sapucaí foi um carnaval não domesticado:
não folclórico,
não publicitário,
não moldado para agradar.

Foi um carnaval que reivindicou o direito de se reconhecer como Brasil. Um Brasil que migra, trabalha, apanha, resiste e vota. Um Brasil que não cabe no enquadramento limpo da neutralidade televisiva.

A disputa que se viu não foi entre escolas de samba, mas entre duas ideias de país:
— a que transforma cultura popular em produto neutro;
— e a que a assume como expressão política.

A Sapucaí mostrou que não pertence apenas a quem transmite, mas a quem desfila. E que, mesmo vigiada, a avenida ainda é capaz de revelar aquilo que se tenta esconder: que o povo, quando fala em samba, também fala de poder.

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Editor Ourinhos Online