Quais são os verdadeiros problemas da educação II? II – O lado do aluno – Por Mauricio Saliba
No debate público sobre educação, quase sempre se procura um culpado. Ontem foi o professor “doutrinador” ou “despreparado”. Hoje, volta-se o dedo para o aluno “desinteressado”, “preguiçoso”, “indisciplinado”. Em ambos os casos, o diagnóstico costuma ser simplista. A educação brasileira não pode ser compreendida por slogans morais ou nostalgias mal elaboradas. É preciso uma análise sociológica que vá além das aparências.
Aos saudosistas, muitos deles autodenominados conservadores, ainda que não saibam exatamente o que pretendem conservar, convém lembrar que o mundo mudou. E não mudou por um plano ideológico conspiratório, mas porque a própria dinâmica histórica transforma as estruturas sociais, econômicas e culturais. Como escreveu Karl Marx, “tudo que é sólido desmancha no ar”. A escola não está fora desse processo.
Vivemos hoje, no Brasil, dois grandes problemas estruturais que atravessam a experiência escolar dos alunos.
O primeiro deles está ligado à lógica contemporânea do capitalismo, marcada pelo que o economista Joseph Schumpeter chamou de “destruição criativa”. No final do século XX e início do XXI, essa dinâmica se intensificou, produzindo uma cultura de consumo acelerado, hiperconectividade e busca constante por prazer imediato. O tédio se tornou insuportável. A espera, impossível. O sacrifício, sofrimento.
A escola, porém, opera em outra temporalidade. Ela exige concentração prolongada, disciplina, repetição, esforço e adiamento da recompensa. Exige a capacidade de suportar o tédio produtivo, algo que parece natural para quem cresceu em lares com estabilidade, rotina, estímulo à leitura e valorização do estudo, mas que é, na verdade, fruto de treino social. Disciplina não é dom; é formação.
Nesse ponto, é fundamental compreender que o problema não é cognitivo no sentido clássico. Os jovens não são menos inteligentes. O que mudou, como observa o sociólogo Bernard Charlot, foi a relação com o saber. Em uma cultura do “agora”, marcada por redes sociais, estímulos fragmentados e reconhecimento instantâneo, o conhecimento sistemático perde atratividade simbólica. A pergunta silenciosa que ecoa em muitas salas de aula é simples: “Aprender isso vai mudar minha vida?”
Essa dúvida não nasce apenas do desinteresse individual. Ela reflete o enfraquecimento do vínculo entre escolarização e mobilidade social. Durante décadas, o diploma funcionou como promessa de ascensão. Hoje, essa promessa está abalada. Se o mercado de trabalho se mostra instável, se a visibilidade parece mais valorizada que o conhecimento, a escola perde parte de sua credibilidade simbólica. O esforço passa a parecer um investimento de risco.
Nas escolas privadas, esse primeiro problema se evidencia sobretudo na dificuldade de concentração e na incapacidade de suportar processos longos de aprendizagem. Não se trata de incapacidade intelectual, mas de uma cultura que estimula dispersão e gratificação imediata. A lógica do consumo entra na sala de aula: o conteúdo precisa ser rápido, interessante, “vendável”. Caso contrário, perde-se a atenção.
Nas escolas públicas, entretanto, a situação é mais complexa. Ao problema cultural geral soma-se uma desigualdade estrutural brutal. O Brasil convive com uma das piores distribuições de renda do mundo, o que significa que milhões de crianças crescem em contextos marcados por instabilidade, precariedade e insegurança.
Como ensinou Pierre Bourdieu, a escola não transmite apenas conhecimento técnico; ela exige e valoriza determinados tipos de capital (cultural, social e simbólico) que não são distribuídos igualmente. A criança das classes populares não chega à escola como uma “folha em branco”. Ela traz consigo um habitus, isto é, disposições incorporadas ao longo da socialização familiar.
Quando o ambiente doméstico é atravessado pela urgência da sobrevivência, pela instabilidade econômica e pela ausência de rotinas estruturadas, torna-se mais difícil desenvolver hábitos como planejamento de longo prazo, disciplina voltada para recompensas futuras e familiaridade com a linguagem formal escolar. O que muitas vezes é interpretado como “indisciplina” ou “falta de interesse” pode ser, na verdade, o choque entre universos culturais distintos.
A escola pressupõe silêncio, autocontrole, domínio da norma culta, organização do tempo e valorização do estudo como projeto de vida. Quando essas disposições não foram previamente cultivadas, o espaço escolar pode parecer estranho, distante e até hostil. O fracasso, então, não é apenas individual; é estrutural. Ele nasce do desencontro entre a cultura escolar e a realidade social de grande parte dos alunos.
Se quisermos enfrentar seriamente os problemas da educação brasileira, precisamos abandonar a tentação de procurar culpados e começar a enxergar estruturas. O aluno não é o vilão da história, assim como o professor não é seu carrasco. Ambos estão inseridos em uma sociedade marcada por desigualdade extrema e por uma cultura que valoriza o imediato em detrimento do duradouro.
Resolver a crise educacional exige mais do que reformas curriculares ou discursos moralizantes. Exige enfrentar a desigualdade social, reconstruir a credibilidade da escola como projeto de futuro e fortalecer, desde a infância, condições objetivas para a formação de hábitos intelectuais. Exige políticas públicas que integrem escola, família e comunidade, criando ambientes estáveis, previsíveis e culturalmente ricos.
Sem isso, continuaremos a repetir o mesmo erro: cobrar do aluno aquilo que a própria sociedade não lhe oferece. E enquanto a educação for tratada como problema individual, e não como questão estrutural, estaremos apenas administrando sintomas, sem tocar nas verdadeiras causas.
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