Quais são os verdadeiros problemas da educação?
I – O lado do professor
O sistema educacional só se torna visível quando fracassa. Ele aparece no noticiário quando os índices despencam, quando as crises sociais se agravam ou quando os exames expõem, com números frios, o que já era vivido no cotidiano escolar. Nesses momentos, a educação deixa de ser tratada como direito e passa a funcionar como bode expiatório: todos apontam falhas pedagógicas, mas poucos encaram a negligência estrutural do Estado e a pobreza intelectual com que o tema é debatido publicamente.
O debate, aliás, é um desfile previsível de personagens. Há os saudosistas do “no meu tempo a escola era boa”, como se a memória afetiva fosse um indicador educacional confiável. Há os autoritários, convencidos de que o problema se resolve com mais punição, mais gritos e menos reflexão. Há os românticos pedagógicos, que acreditam que tudo se resolve com afeto e sensibilização, como se a precariedade material desaparecesse com boa vontade. E, claro, há os conspiracionistas, sempre prontos a explicar o fracasso escolar como um grande plano estatal para manter o povo ignorante. Todos falam muito. Quase ninguém olha para a estrutura concreta da escola.
Mas, afinal, qual é o problema da educação fundamental e média no Brasil? Por que os índices de qualidade e desempenho são tão baixos? Evidentemente, não se trata de um único fator. Os problemas são múltiplos e interligados, e pretendo desenvolvê-los ao longo de outros textos. Aqui, começo pelo mais óbvio e, curiosamente, um dos mais ignorados: o dilema do professor.
Analisemos, então, um dos grandes problemas, talvez o maior, do ponto de vista do professor:
O grande problema da educação está na questão que no Brasil, seja na escola pública ou privada, o professor raramente consegue viver de um único vínculo empregatício. Para alcançar um salário minimamente digno, precisa “completar carga horária” em duas, três (às vezes quatro) escolas diferentes. Transforma-se numa espécie de entregador de aulas: corre de uma escola para outra, vive com o relógio na mão e a mochila nas costas. Mal termina uma aula, já precisa sair correndo para a próxima. Muitas vezes, engole um salgado no caminho para não se atrasar. Chamar isso de rotina profissional chega a ser um eufemismo.
Nesse corre-corre, o professor não conhece verdadeiramente seus alunos. Não há tempo para sentar, conversar, compreender dificuldades, acompanhar trajetórias. Mesmo nas chamadas escolas de “tempo integral”, que, na prática, são apenas de tempo estendido, o salário continua insuficiente para garantir uma vida decente. Falta tempo para estudar, falta dinheiro para livros, faltam condições para cursos de formação continuada. A exigência de atualização é permanente; as condições materiais para realizá-la, inexistentes.
Nas escolas particulares, soma-se ainda outro problema: a alta rotatividade docente. Professores são contratados e dispensados não por incompetência pedagógica, mas pela impossibilidade de fechar horários entre múltiplas instituições. São cobrados como se tivessem dedicação exclusiva, obrigados a fazerem cursos _on-line_ de “atualização” duvidosa, conduzidos por _coaches_ cheios de entusiasmo e pobres de conteúdo, enquanto recebem por poucas e mal remuneradas aulas, mas são cobrados como se fossem sócios da escola. Para completar o quadro, as salas estão sempre superlotadas, pois para darem lucro ou manterem os custos e fundamental empilhar alunos até o teto. Alunos demais para um único professor, inviabilizando qualquer trabalho individualizado ou atenção aos que mais precisam. O resultado não é mistério: estresse crônico, adoecimento psíquico, depressão, e um discurso oficial que finge surpresa.
Em países onde a educação funciona razoavelmente bem, para todos, e não apenas para uma elite, o cenário é outro. O professor consegue viver com dignidade trabalhando em uma única escola. Ele entra pela manhã e permanece até a tarde. Quando não está em sala de aula, está na escola: tem uma sala própria, atende alunos, acompanha dificuldades, dialoga com colegas. Conhece o entorno da escola, as famílias, a comunidade. Pesquisa, estuda, se atualiza, não por heroísmo, mas porque isso faz parte da sua jornada de trabalho. As turmas são menores, os materiais didáticos são abundantes e o acompanhamento pedagógico é possível.
O problema central, do ponto de vista do professor, não é vocação, autoridade, afeto ou ideologia. É estrutura. É a impossibilidade concreta de se dedicar integralmente a um projeto educativo. Enquanto o professor for tratado como um prestador de serviços fragmentado, itinerante e exausto, qualquer discurso sobre qualidade da educação não passará de retórica vazia.
Creio que o ponto já esteja claro: este é um dos grandes problemas da educação. É fácil de resolver? Evidentemente não, porque exige investimento, e investimento custa dinheiro. Um modelo de escola realmente integral é caro, mas não é gasto: é aposta no futuro do país.
E quem deveria financiá-lo? A resposta é óbvia: os mais ricos, por meio de um sistema tributário efetivamente progressivo. O problema é que eles não se sentem implicados, não tem visão estratégica para o país, somente para seus negócios. Seus filhos estudam em escolas privadas, e, no fim do percurso, herdarão patrimônio, não o fracasso da escola pública. Assim, a precariedade educacional deixa de ser um problema coletivo e passa a ser apenas mais um dado administrável da desigualdade brasileira. Reconheço que os problemas da educação e os dilemas enfrentados pelos professores são múltiplos; contudo, neste breve texto, concentrei-me em apenas um aspecto, deixando os demais para artigos posteriores. No próximo texto, tratarei do outro lado da equação: o lado do aluno.
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