Policial penal pediu ajuda a Tarcísio de Freitas antes de tirar a própria vida
Levantamento aponta 112 mortes autoprovocadas de policiais penais ativos entre 2020 e 2024; só em São Paulo foram 30 casos
Um comentário feito nas redes sociais do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, expôs de forma dramática a crise de saúde mental vivida por policiais penais no estado. No dia 15 de novembro de 2025, enquanto o governador publicava uma homenagem à esposa, o policial penal Luiz Henrique Ribeiro, com 23 anos de carreira, utilizou o espaço para pedir ajuda.
Em profunda depressão e pai de três filhos — um deles com apenas sete anos —, Ribeiro relatou que sofria de duas doenças tratáveis, mas não conseguia acesso adequado ao tratamento.
“Sou funcionário público há 23 anos e estou precisando de ajuda urgente para tratamento de duas doenças que têm cura. Estou numa depressão profunda, mal saio do quarto. Ajuda por amor de Deus. Mandei mensagem desde 2023 e nada foi respondido. É por isso que há tantas tentativas contra a própria vida de tantos servidores”, escreveu.
O pedido nunca recebeu resposta pública. Menos de três meses depois, em 9 de fevereiro de 2026, Luiz Henrique Ribeiro morreu após uma tentativa contra a própria vida. Ele estava afastado da Penitenciária de Marília e enfrentava uma doença que o mantinha sem dormir por várias noites consecutivas. Medicamentos e trocas de médicos não surtiam efeito. Segundo relatos, o Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) não conseguiu oferecer o tratamento especializado necessário.
Números alarmantes
O caso não é isolado. Dados do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) apontam 112 mortes autoprovocadas de policiais penais ativos no Brasil entre 2020 e 2024. São Paulo concentra 30 desses casos.
Na comparação entre 2023 e 2024, todas as demais forças de segurança pública apresentaram queda nos registros de suicídio. A única exceção foi a Polícia Penal, que teve aumento.
O Sindicato dos Policiais Penais de São Paulo (Sinppenal) contabilizou pelo menos cinco casos em 2025. A morte de Ribeiro é a primeira registrada em 2026.
“Depressão, ansiedade e outros transtornos psiquiátricos são comuns no sistema prisional paulista. O adoecimento é provocado pelas condições insalubres, o risco permanente à vida e o excesso de trabalho”, afirma Fábio Jabá, presidente do sindicato.
Assistência em colapso
Servidores que procuram o Iamspe relatam longas filas e dificuldade para conseguir atendimento psicológico e psiquiátrico. Aproximadamente 10% do efetivo da Polícia Penal paulista está afastado. Metade dos afastamentos ocorre por problemas relacionados à saúde mental.
“Os policiais penais vivem em constante tensão, com déficit de servidores, presídios superlotados e ameaças de facções criminosas. É urgente implementar políticas eficazes de cuidado psicológico”, diz Jabá.
Profissão de alto risco
Estudo do Instituto de Psicologia da USP, publicado em 2010, classificou a profissão de policial penal como a segunda mais perigosa do mundo. A expectativa de vida desses trabalhadores é de cerca de 45 anos, quase 30 anos abaixo da média nacional. Quinze anos depois, a situação é considerada ainda mais grave.
São Paulo abriga atualmente cerca de 224 mil detentos e conta com aproximadamente 23,5 mil policiais penais ativos. De acordo com recomendações da ONU e do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), o ideal seria um policial para cada cinco presos — o que exigiria quase 45 mil servidores. Hoje, a proporção é de um para quase dez.
“Cada policial faz o trabalho de dois. O Estado não repõe aposentadorias nem afastamentos, e o concurso previsto foi suspenso pela Justiça”, denuncia o sindicato.
Posicionamento oficial
Em nota, a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) afirmou que tentou contato com o servidor sem sucesso e declarou solidariedade à família. A pasta informou que oferece atendimentos psicológicos presenciais e on-line, além de palestras e ações preventivas.
Segundo a SAP, o Iamspe realizou mais de 621 mil teleatendimentos em saúde mental e lançará novo edital para contratação de especialistas em março. A secretaria não respondeu aos questionamentos sobre o déficit de servidores.
Silêncio que custa vidas
Para o sindicato, a ausência de uma política estruturada de saúde mental revela descaso institucional.
“Não é um benefício corporativista. É uma questão de sobrevivência. Enquanto policiais penais morrem, o governo permanece em silêncio. O apelo de Luiz Henrique nunca foi respondido. Não há plano efetivo. Não há investimento suficiente. Cada suicídio é um fracasso do Estado”, afirma Jabá.
Luiz Henrique Ribeiro pediu ajuda. Não foi atendido. Agora, integra uma estatística que continua crescendo.
A pergunta que permanece é: quantas mortes ainda serão necessárias para que medidas concretas sejam adotadas?
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