O que fazemos quando nos contrariam? Por Paula Hammel
Contrariar, quase nunca, é discordar. Na maioria das vezes, trata-se de uma tentativa de deslocamento. A contrariedade não chega como ideia; entra pela lateral, interrompe uma frase, altera o tom, muda a temperatura do ambiente. O corpo percebe antes da consciência, e isso não é figura de linguagem. Há um instante em que algo sai do eixo e, nesse intervalo breve, a decisão já começa, ainda sem forma definida.
Recordamos uma manhã comum, mesa de café, conversa trivial. Dizemos algo simples e ouvimos a correção imediata, pública, precisa demais para ser casual. Não há debate, há reposicionamento. Sorrimos, concordamos, seguimos adiante. As horas passam, e resta um incômodo mal resolvido. Não é o comentário, porém o silêncio. Aquela escolha custa mais do que uma resposta curta e exata. Ali entendemos que nem todo recuo é sensatez.
Por muito tempo, reagimos depressa. Não por clareza, mas por autoproteção. A urgência parece firmeza, quando é receio de parecer menor. Com o tempo, o aprendizado se impõe, embora nem sempre se sustente: permanecer exige mais fôlego do que responder, sobretudo quando outros tentam empurrar para fora do próprio centro. A contrariedade não avalia pensamento; mede a capacidade de continuar inteiro.
Nem toda resistência busca troca, algumas querem corrigir, outras diminuir. Há negativas disfarçadas de cuidado, ironias polidas, sugestões que exigem justificativa onde já existe limite. Para nós, isso assume formas distintas e, ainda assim, produz o mesmo desgaste. O equívoco está em tratar tudo como conversa legítima. Atender a cada estímulo consome; ignorar, entretanto, sempre tem custo. O ponto de equilíbrio não se aprende em teoria, constrói-se no erro, e nem sempre se acerta.
Com a experiência, passamos a reconhecer sinais. Certas investidas nascem da falta de repertório, e a explicação ainda encontra lugar. Outras brotam da insegurança, e o afastamento organiza melhor do que qualquer argumento. Há também as provocadas por entretenimento, como se a reação confirmasse importância. Nesses casos, o silêncio não é ausência; é contenção consciente. Ainda assim, nem sempre escolhemos bem, mesmo sabendo o preço.
Existem situações em que calar não protege, apaga. Quando a tentativa de deslocamento atinge valores, o silêncio deixa de ser virtude. Falar, então, não é ataque; é permanência. A voz não precisa de volume nem de extensão – carece de precisão. Dizer o essencial, sem ornamento e sem culpa, basta.
Talvez a pergunta não seja o que fazemos quando nos contrariam, mas quanto custa cada escolha, o que se perde ao reagir por impulso ou ao silenciar por hábito. Entre uma coisa e outra, existe aquele mesmo instante da mesa de café reaparecendo sob outras formas quando ninguém observa, ninguém aplaude e, no entanto, algo se define. É ali que não se mede a força do discurso, mas o quanto estamos dispostos a não nos abandonar para caber no desconforto alheio.
Paula H’ammel
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