O Agente Secreto” (2025): o confronto com o passado e as novas asas do cinema nacional – Por Bruno Yashinishi

. Há filmes que tentam “representar” o passado — com todas as aspas que a palavra exige. Reconstroem figurinos, repetem discursos, alinham datas e eventos como se a história fosse um cenário estático, domesticável. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, segue por outro caminho: não pretende ilustrar a ditadura militar brasileira, mas expor suas engrenagens emocionais, seus vazios e seus mecanismos de medo — muitos deles ainda operantes no presente. Nesse sentido, o filme funciona como um confronto direto com o passado e, ao mesmo tempo, como um gesto que devolve fôlego e novas asas ao cinema nacional, ao recusar fórmulas gastas e apostar em risco estético e político.
Ambientado no Recife de 1977, o longa se apropria da linguagem do thriller político e do neo-noir para falar menos de espionagem e mais de sobrevivência. O protagonista vivido por Wagner Moura é um homem em estado permanente de fuga — não apenas de assassinos ou do aparato repressivo, mas de um passado que insiste em reaparecer sob novas formas. A multiplicação de identidades não funciona como truque narrativo, e sim como metáfora de um país que fragmenta seus indivíduos quando estes se tornam incômodos.
Kleber Mendonça Filho reafirma aqui uma de suas marcas mais fortes: o espaço como entidade política. Recife não surge como cartão-postal nem como reconstrução nostálgica, mas como território sitiado. Ruas, repartições públicas, cinemas e casas parecem impregnados de escuta e suspeita, como se a cidade inteira participasse do sistema de vigilância. O Cinema São Luiz, figura central na narrativa, assume o papel de abrigo simbólico da memória — um espaço onde passado, afeto e apagamento se chocam.
A narrativa recusa explicações fáceis e progressões lineares. O filme aposta no acúmulo, na dispersão e, por vezes, no excesso. Essa escolha pode frustrar espectadores em busca de um thriller clássico, mas é coerente com a experiência histórica que o filme convoca: regimes autoritários não produzem histórias limpas nem trajetórias ordenadas. Produzem ruído, lacunas e versões concorrentes da verdade.
Wagner Moura sustenta o filme com uma atuação de contenção radical. Seu personagem parece sempre à beira do colapso, mas raramente o verbaliza. O desgaste se manifesta no corpo, nos silêncios e nos deslocamentos. Ao seu redor, personagens que orbitam entre a solidariedade e o oportunismo compõem um retrato moral instável, no qual ninguém está completamente protegido — nem completamente inocente.
Visualmente, O Agente Secreto constrói uma atmosfera densa, marcada por sombras, granulação e sons que invadem a cena como ameaças invisíveis. Até os momentos de intimidade carregam a sensação de interrupção iminente. O passado, sugere o filme, não é algo distante: apenas aprende a se esconder melhor.
O reconhecimento internacional que o longa vem acumulando — especialmente no Globo de Ouro — não deve ser lido apenas como celebração ou curiosidade estatística. As indicações inéditas e as vitórias conquistadas reposicionam o cinema brasileiro num circuito historicamente restritivo, mas também revelam algo mais profundo: foi um filme disposto a confrontar sua própria história que abriu essa fresta. A crescente possibilidade de uma campanha competitiva ao Oscar reforça esse diagnóstico. Em um cenário internacional atento a narrativas sobre memória, violência institucional e apagamento histórico, O Agente Secreto encontra ressonância não por exotismo, mas por precisão, rigor e desconforto.
Ao fim, o filme se afirma menos como obra de época e mais como exercício de memória ativa. Não busca ensinar história nem oferecer catarse. Prefere provocar, tensionar e lembrar que o autoritarismo não termina com o fim dos regimes, mas com o desmonte de suas estruturas simbólicas. O Agente Secreto não “representa” o passado — encara-o de frente. E, ao fazer isso, reposiciona o presente do cinema brasileiro.

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Editor Ourinhos Online