Mudança no INSS abriu caminho para expansão do Credcesta ligado ao Banco Master
Uma mudança feita pelo INSS durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro permitiu a criação e rápida expansão do Credcesta, cartão consignado operado pelo Banco Master. Documentos mostram que uma nova regra foi publicada apenas 16 dias após o banco pedir autorização formal para operar a modalidade.
Em 7 de junho de 2022, o Banco Master enviou um ofício ao INSS solicitando a inclusão do chamado “cartão consignado de benefício” no acordo de cooperação entre as partes. Pouco mais de duas semanas depois, em 23 de junho, o instituto publicou uma nova instrução normativa detalhando justamente como esse tipo de cartão poderia funcionar.
A medida permitiu que o Credcesta passasse a atender aposentados, pensionistas do INSS e beneficiários do BPC, além dos servidores estaduais e municipais que já eram alvo da operação do banco.
O Credcesta era apresentado como um cartão consignado com serviços extras, como descontos em farmácias e auxílio-funeral. A modalidade foi levada ao Banco Master pelo empresário Augusto Lima, que depois se tornou sócio de Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira.
Os números mostram o tamanho da expansão. Dados da Dataprev apontam que os contratos ligados ao Credcesta saltaram de 104,8 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024, crescimento de mais de 2.500% em apenas dois anos. O produto se espalhou por 24 estados e 176 municípios.
A primeira mudança nas regras ocorreu em 25 de março de 2022, quando o então presidente do INSS, José Carlos Oliveira, assinou uma instrução normativa permitindo operações com cartão consignado de benefício. A norma alterava regras que existiam desde 2008, mas não explicava como esse cartão deveria funcionar.
Depois do pedido feito pelo Banco Master, o INSS publicou uma segunda norma, em 23 de junho, detalhando a operação. O documento foi assinado pela então presidente substituta do órgão, Larissa Mora. Pouco depois, em 13 de julho, foi firmado o aditivo que autorizou oficialmente a inclusão do Credcesta no acordo entre o INSS e o Banco Master.
A atual gestão do INSS considera que as mudanças foram feitas sob medida para beneficiar o banco e afirma que o Credcesta operou de maneira irregular. Segundo o presidente do instituto, Gilberto Waller Júnior, a modalidade misturava empréstimo pessoal e crédito consignado, o que não teria amparo legal.
“Quando se faz um Credcesta, ele começa com empréstimo pessoal. Havendo margem, esse crédito migra para o consignado. Na visão do INSS, isso é irregular”, afirmou Waller.
O acordo entre o INSS e o Banco Master vigorou de 2020 até 2025, mas não foi renovado após o surgimento de suspeitas de fraudes em contratos e carteiras de crédito do banco, investigadas pela Polícia Federal.
O ex-presidente do INSS José Carlos Oliveira, que atualmente usa o nome Ahmed Mohamad Oliveira, é investigado pela PF. A polícia afirma que ele teria atuado de forma estratégica em um esquema de descontos fraudulentos sobre aposentadorias e aponta suspeitas de recebimento de propina.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, também é alvo das investigações. Ele foi preso preventivamente em 2025 e negocia um acordo de delação premiada com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.
Em nota, a defesa de Vorcaro afirmou que o Banco Master sempre atuou seguindo as normas e exigências estabelecidas pelo INSS para a concessão de crédito consignado.
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