História recontada Marighella em Marilia
“Bauru é o mais importante centro ferroviário do país. É o ponto de interligação do centro, sul e leste, além de conexão com países limítrofes. Marília é o ponto médio entre a Sorocabana e a Noroeste, sendo também servida pela Estrada de Ferro Paulista.
Todo o fluxo de café exportável — responsável por grande parte das divisas nacionais — é realizado por essas ferrovias. A paralisação, mesmo que temporária, desse complexo afeta seriamente a já abalada economia capitalista do Estado.”
A análise é de Carlos Marighella, considerado o “inimigo número um” da ditadura civil-militar (1964–1985), conforme relatório do serviço secreto do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), datado de 15 de agosto de 1968. O documento registra uma “reunião de Marighella com membros da Ala Marighella em Marília” (Arquivo DOPS/SP).
A Ala Marighella foi o nome original da Ação Libertadora Nacional (ALN). A informação consta no livro San Ernesto de la Higuera, de João Teixeira, atualmente em fase de lançamento.
Outras revelações sobre a trajetória de Marighella também aparecem no livro Clandestina, de Ana Cerqueira Cesar Corbisier, ex-guerrilheira da ALN, que viveu seis anos em Cuba e conviveu com o líder, conhecido como “Preto”.
“Eu me senti muito bem com meu novo contato, especialmente depois de conhecer Carlos Marighella, que foi o líder da resistência armada à ditadura militar. Fiquei encantada com o ‘Preto’, como o chamávamos.
Nos seus 60 anos, forte, alto, com aquela peruca esquisita, sua simplicidade, a atenção com todos e sua tranquilidade transmitiam segurança e confiança na luta e na vitória.”
Marighella possuía sólida formação autodidata. Embora não fosse engenheiro, fundamentava seus conceitos revolucionários com argumentos econômicos consistentes. Demonstrava grande interesse pela agricultura e domínio sobre a economia do interior, que considerava “o elo frágil da cadeia capitalista”.
“Ele se punha a sonhar alto com o futuro do Brasil socialista, enquanto eu, ignorante, lhe pedia:
— Preto, não fala assim do futuro, que dá azar. Socialismo é coisa para nossos netos.” (Corbisier, p. 56)
Entre gráficos e dados sobre o café beneficiado e comercializado no atacado, Marighella, estrategista bem informado, destacava:
“… convém não esquecer o papel da Noroeste, em caso de agravamento da luta de libertação na Bolívia. Na parte rodoviária, em um raio de 50 km, há interligação de São Paulo com o restante do país, exceto pelos eixos dominados pela Dutra, BR-2, Anhanguera e Raposo Tavares.”
Sobre energia, registrava:
“Em suprimentos energéticos, destacam-se a energia elétrica e o petróleo. CHESF: Salto Grande, Jurumirim, Paranapanema […] Cinza I e II. No Tietê: Barra Bonita, Bariri e Avanhandava. Depois, o complexo de Urubupungá e Ilha Solteira. Todas as linhas de transmissão passam pela região.”
Corbisier relembra:
“Datilografei muitos documentos que ele elaborou à época, inclusive o Minimanual do Guerrilheiro Urbano, que se tornou uma obra universal, traduzida para várias línguas e distribuída pelos Panteras Negras, nos Estados Unidos.”
Apesar da importância estratégica, Marighella apontava fragilidades:
“Não há na região movimento proletário organizado. Não há movimento estudantil universitário consciente. Não há movimento artístico e intelectual da pequena burguesia. Contudo, geograficamente, sua importância é estratégica.”
No Sul, especialmente em São Paulo e no Paraná, em áreas de expansão agrícola, a polícia política registrava a venda aberta de armamentos e explosivos, sem controle ou fiscalização, muitas vezes escondidos entre sacos de arroz e feijão.
“Em Ourinhos, dinamite, mecha lenta (estopim) e espoletas vinham sendo vendidos indiscriminadamente. No Paraná, empresas do norte novo e pioneiro comercializavam dinamite sem nota fiscal. Em Curitiba, a casa Ás de Espadas vendia parte da munição sem registro.”
Segundo os registros, havia grande volume de armamentos e explosivos desviados.
Pouco tempo depois, na noite de 4 de novembro de 1969, Marighella foi assassinado na maior emboscada já realizada pela polícia paulista.
Os livros Ainda Estamos Vivos e San Ernesto de la Higuera, de João Teixeira, além de Clandestina, de Ana Cerqueira Cesar Corbisier, têm lançamento previsto em breve em Ourinhos.
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