Entre o chiado e o canto – Por Paula Hammel
A cidade desperta antes de reconhecer o próprio gesto, algo que se percebe nos sons que escapam cedo demais e atravessam cozinhas estreitas, motores em marcha lenta, salas recém-arejadas. Cada ambiente tenta capturar um sinal que não se dissipe. O ruído não indica falha, sustenta o fundo sobre o qual alguém, sem testemunhas, sorri, e esse movimento mínimo altera o curso da manhã. Não há anúncio. Há interferência.
Cantar sozinho acontece quase sempre sem intenção. A voz ocupa o espaço, recua, retorna, tropeça, insiste, até que encontra outra voz que passa a acompanhá-la, não por acordo, porém por proximidade. Não existe espetáculo, apenas coincidência. O som não organiza o dia – muda o ritmo do que vem depois.
Algumas transformações não pedem plateia. O pensamento altera a atmosfera do quarto, o corpo reorganiza a conversa, e a atenção desloca o centro do espaço sem impor direção, de modo que a mudança ocorre por reverberação, não por força. A tranquilidade aparece por instantes e se desfaz do mesmo modo.
A vida funciona como transmissão contínua, alternando zonas de saturação e de falha, passagens na qual o chiado prevalece e outras em que a música excede. Entre uma frequência e outra, a mão vacila e compreende o peso da escolha. Há caminhos estreitos e salões amplos, e o deslocamento entre eles acontece mais vezes do que se percebe.
Em certos momentos, a escuta se rarefaz, o ouvido perde precisão e o excesso se adensa. Ainda assim, um sorriso reaparece, uma voz se arrisca, um pensamento muda de direção, e o entorno reage não por intenção, mas por efeito, enquanto o mundo segue em deslocamento.
O dia segue, fiel à sua lógica irregular. A transmissão permanece ativa, os ouvintes continuam atentos, e o controle segue ali, ao alcance da mão, exigindo decisão sem oferecer garantia. Nenhuma frequência se entrega pronta.
Paula H’ammel
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