E foi assim que deixei de ser ingênua. – Por Paula Hammel

A multidão.

Sempre a multidão.

Tanta
que às vezes penso
que o mundo não é um lugar.

É um empurrão constante de gente.

E eu ali.

No meio.

Como um pensamento
na cabeça errada.

Falam.
Gritam.
Sorriem.
Prometem.

E eu escuto
tentando entender
se sou alguém

ou apenas
o resto
do que disseram
que eu sou.

A multidão passa.

Alguns deixam ruído.
Outros silêncio.

Quase ninguém
deixa verdade.

Olham para mim
como se soubessem.

E eu permito.

Porque às vezes
é mais fácil
ser interpretada

do que existir.

Aprendi cedo:

os outros precisam
que sejamos alguma coisa.

Algo simples.
Algo que expliquem.

Algo que caiba
na frase curta
que usarão
quando falarem de nós.

Mas eu nunca coube.

Sou o excesso da frase alheia.

A vírgula
que ninguém sabe
onde colocar.

A palavra
que ninguém termina.

E então percebo

que já não sei
onde termino

e onde começam
as versões de mim
que inventaram.

Há um silêncio.

Talvez eu seja apenas
o que fizeram de mim.

Sou muitas.

E nenhuma.

A multidão.

Essa maldita multidão.

E foi assim
que deixei
de ser ingênua.

Paula H’ammel

Editor Ourinhos Online