Dia Internacional em Memória do Holocausto – F. Javier Blázquez Ruiz.
No dia 27 de janeiro de 1945, duas divisões da Primeira Frente Ucraniana, integradas ao Exército Soviético, libertaram o campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, um dos principais centros do horror nazista espalhados pela Europa.
Oitenta e um anos depois, a Unesco reitera seu compromisso de lutar contra preconceitos e atitudes racistas, o antissemitismo e qualquer forma de intolerância que possa resultar em violência. Ao mesmo tempo, adverte que aquele “genocídio perpetrado durante a Segunda Guerra Mundial não pertence somente ao passado. É uma história viva, que nos diz respeito a todos, quaisquer que sejam nossas origens, culturas ou religiões”. Ainda mais em uma época marcada pela incerteza e pela polarização, na qual discursos supremacistas, xenófobos e demagógicos vão ocupando um espaço cada vez maior na esfera pública.
Os motivos do atual crescimento dessas atitudes discriminatórias e excludentes podem ser diversos, mas, como advertia Tzvetan Todorov, os males que o espírito iluminista tentou erradicar mostraram-se mais resistentes do que imaginaram os homens do século das Luzes. Eles até cresceram desde então, porque “os inimigos tradicionais da Ilustração — o obscurantismo, a autoridade arbitrária e o fanatismo — são como cabeças de hidra que voltam a brotar pouco depois de terem sido cortadas”.
Convém recordar que, ao chegar ao poder em janeiro de 1933, os dirigentes nazistas utilizaram o ensino, o cinema e os meios de comunicação como instrumentos de manipulação. Pretendiam doutrinar, sequestrar a verdade das palavras e alterar seu significado para impor sua ideologia totalitária.
Por meio da linguagem, deturpavam a realidade, enganavam os eleitores com artimanhas e falsidades contínuas e semeavam o ódio por toda parte, até conseguir que boa parte dos cidadãos alemães colaborasse, ativamente ou por meio do silêncio, com a engrenagem da barbárie. Essa horda violenta, alentada pelo regime nacional-socialista, perseguiu ferozmente o povo judeu, os ciganos, os homossexuais, as Testemunhas de Jeová… como se revelou após a libertação de Auschwitz.
Só assim se pode compreender a participação massiva naquela orgia devastadora, que atraiu não apenas trabalhadores, comerciantes, industriais ou banqueiros, mas também cientistas e intelectuais de múltiplas disciplinas — biologia, medicina, direito, filosofia — que se deixaram fascinar e atuaram como cúmplices. Tudo isso aconteceu em um dos países mais desenvolvidos da Europa, que no primeiro terço do século contava com o maior número de prêmios Nobel do mundo, boa parte deles judeus.
Os dirigentes nazistas, como o ministro da Propaganda Joseph Goebbels, sabiam que as palavras são armas perigosas. Podem ser anestesiantes e, ao mesmo tempo, corrosivas e letais. Funcionam como doses mínimas de arsênico que são ingeridas sem que se perceba, mas que com o tempo se tornam tóxicas: anulam o sentido crítico, envenenam e acabam produzindo efeitos mortíferos.
Na mentalidade nazista não havia espaço para a compaixão ou a sensibilidade. Seus membros deviam tomar decisões sem escrúpulos morais e agir com absoluta falta de piedade diante dos considerados “inimigos do povo alemão”. O caso de Hermann Göring, estrategista brilhante e fanático de Hitler, protagonista do recente filme Nüremberg, é revelador. Todos os oficiais do Exército juraram entregar sua vida ao Führer, um homem iracundo e abjeto, sem formação ou experiência política prévia.
Daí a importância de lembrar acontecimentos históricos tão relevantes como o Holocausto. O totalitarismo nazista, esse indescritível documento de barbárie, não foi apenas uma fábrica de morte, mas também um projeto premeditado de esquecimento. Sabemos que a memória é frágil, mas o passado exige ser lembrado, porque Auschwitz continua sendo uma ferida aberta na consciência da humanidade. Como advertiu o sobrevivente Primo Levi: “Se compreender é impossível, conhecer é necessário, porque o que aconteceu pode voltar a acontecer; as consciências podem ser novamente seduzidas e obnubiladas: as nossas também”.
Lamentavelmente, o fantasma do racismo e da xenofobia continua a pairar na mente de certos ideólogos e políticos extremistas, radicais e autoritários, que utilizam as palavras como mecanismos para seduzir e mobilizar as massas. Não lhes importa, como dizia Hannah Arendt em Verdade e mentira na política, que para adequar a realidade às suas falácias “sua propaganda se caracterize por seu extremo desprezo pelos fatos”.
F. Javier Blázquez Ruiz.
Catedrático de Filosofia do Direito. Universidade Pública de Navarra. Mestre e doutor em Filosofía pela Universidade Católica de Lovaina, Bélgica
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