Correção não é recuo Por Paula Hammel
De trás pra frente, interrompi trajetórias incontáveis. Suspendi formações, alterei direções, abandonei projetos que pareciam irrevogáveis apenas porque haviam sido concebidos com método. Durante muito tempo, acreditei que método fosse sinônimo de verdade. Não era. Servia, com frequência, para estender equívocos com aparência respeitável. Aquilo que se apresentava como urgência revelou, mais tarde, simples insistência ruidosa. E existe um desgaste particular em sustentar o que já se esvaziou.
Nada disso surgiu como revelação elegante. Não houve maturidade exemplar nem aprendizado conclusivo. Houve desgaste contínuo. Um tipo de erosão que não ensina, apenas impõe interrupção. Inícios sucessivos, todos bem fundamentados, todos incapazes de avançar. Quando o deslocamento externo emperrava, algo permanecia ativo, não por virtude, mas por impossibilidade de desligamento. A mente seguia operante. O texto também. Não como opção estética, mas como falha estrutural.
Nunca foi necessário estar inteira para produzir linguagem. Essa é sua violência discreta. O verbo ignora exaustão, despreza coerência afetiva e acolhe o que resta depois do colapso. Trabalha com fragmentos, sobras, resíduos de intenção. Exige apenas presença. E presença, quando tudo convida à evasão, cobra um preço alto e raramente reconhecido.
Levei tempo para aceitar que avançar pode ser apenas uma forma sofisticada de evasão. Dei o nome de persistência ao que era temor organizado. O corpo sinalizava antes. A razão erguia defesas depois. A escrita não pactuava com nenhum dos dois. Registrava, sem concessões, aquilo que eu preferia disfarçar para continuar operando sem questionamentos.
Em determinado ponto, interromper deixou de soar como fracasso e passou a assumir contornos de indecência. Porque cessar expõe. Retira o álibi da constância, desmonta a retórica do esforço contínuo, compromete a imagem de alguém confiável. Permanecer em territórios esgotados é socialmente mais aceitável do que recuar com lucidez. Ainda assim, foi preciso aprender a voltar atrás sem me dissolver. Ajustar não por prudência, mas por integridade intelectual. Como um texto que não solicita mais prazo; exige verdade.
Nada assegura estabilidade depois disso. Novas pausas aparecerão, outras direções se imporão, e a tentação de chamar ruído de progresso seguirá sedutora. Talvez escrever seja apenas o espaço onde a falsidade não se sustenta. Porque parar não é o contrário de seguir. Às vezes, é apenas o instante exato em que a encenação desmorona.
Paula H’ammel
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