Feria com elegância – Por Paula Hammel

Nunca vi aquela criatura alterar a voz, nem mesmo nas ocasiões em que mais claramente diminuía outra pessoa. Possuía maneiras discretas, excelente memória para pequenas obrigações sociais e uma dessas delicadezas constantes que fazem certos indivíduos parecerem moralmente superiores. Lembrava aniversários, perguntava pela saúde das mães enfermas e jamais atravessava uma sala sem dirigir alguma atenção à figura mais esquecida de um canto.

Feria com elegância.

Não suponha o leitor brutalidades vulgares. Nunca a vi recorrer àquelas franquezas violentas por meio das quais tanta gente procura dar à própria grosseria aparência de caráter. Escutava confidências com paciência sincera, ou aparentemente sincera, e inclinava de leve a cabeça quando lhe entregavam alguma tristeza. Só depois vinha a observação: breve, precisa, dita quase sempre enquanto alisava distraidamente a toalha da mesa ou levava a xícara de café aos lábios. Dias mais tarde, quem a ouvira ainda se surpreendia pensando naquela frase, sem conseguir determinar em que instante exato começara o mal-estar.

Lembro-me de uma noite em que certa moça, abandonada às vésperas do casamento, ocupou a conversa durante longo tempo. Houve quem lamentasse a pobre criatura. Houve também quem recordasse episódios semelhantes, porque desventuras amorosas costumam despertar antigas recordações. Ela ouviu tudo em silêncio. Só no fim, enquanto dobrava lentamente o guardanapo sobre o colo, observou que muitas pessoas padecem menos pela partida de alguém do que pelo vazio que essa mudança deixa nos hábitos da vida.

Ninguém respondeu. A mesa inteira pareceu reconhecer, obscuramente, alguma verdade desagradável.

Confesso que durante algum tempo admirei semelhante serenidade. A convivência humana está cheia de indivíduos excessivos, inclinados a transformar qualquer emoção em espetáculo; encontrar uma pessoa capaz de conservar certa ordem interior em meio às perturbações alheias parecia, à primeira vista, sinal de rara inteligência. Demorei, contudo, a perceber que determinadas formas de clareza nascem simplesmente da distância.

O curioso era que ela se julgava apenas sensata. Tinha pouca paciência para os grandes desalentos amorosos. Desconfiava das aflições prolongadas, das demonstrações excessivas de afeto e daquela necessidade de falar continuamente sobre a própria melancolia. Dizia, às vezes, que ninguém padece unicamente pela perda de outro ser. Sofre também pela alteração silenciosa que certas despedidas produzem dentro da existência.

Depois apaixonou-se.

Não convém rir. A vida raramente desperdiça ironias dessa natureza.

O homem não era perverso. Limitava-se àquela espécie moderna de distanciamento que deixa tudo intacto na aparência e arruína silenciosamente o resto. Respondia pouco, adiava encontros e carregava consigo a tranquilidade irritante das criaturas que sabem viver sem companhia determinada.

Ela sofreu sem escândalo. Tornou-se mais distraída, esquecia o fim das próprias frases e já não pronunciava suas observações com a antiga segurança. Uma tarde, enquanto me falava sobre um assunto do qual não recordo, interrompeu-se de repente e permaneceu alguns segundos olhando a janela da sala, como se procurasse compreender por que certas aflições escolhem justamente quem passou tantos anos acreditando observá-las de fora.

Não sei se de tudo isso aprendeu alguma coisa. A dor corrige menos do que o sofrimento imagina.

Desde então, tornei-me desconfiada de pessoas excessivamente serenas diante do padecimento alheio. Quase sempre existe, sob a compostura mais polida, alguém persuadido de que a tristeza será eternamente um acontecimento na vida dos outros.

Paula H’ammel

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Editor Ourinhos Online