“Estão querendo me matar”: secretário de JK reforça tese de assassinato político durante ditadura

 

Serafim Jardim afirma que Juscelino Kubitschek temia ser executado pelos “homens de 64” e diz que ex-presidente repetiu frase três vezes antes da morte

Quinze dias antes de morrer na Via Dutra, em agosto de 1976, o ex-presidente Juscelino Kubitschek teria confidenciado mais uma vez ao amigo e secretário particular Serafim Mello Jardim: “Estão querendo me matar, mas ainda não me mataram”. A declaração, feita no aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, voltou a ganhar repercussão após novas análises periciais colocarem em dúvida a versão oficial do acidente automobilístico que matou JK.

Em entrevista ao programa “Cessar-fogo”, da TV 247, Serafim afirmou acreditar que o ex-presidente foi vítima de um atentado político articulado por setores ligados à ditadura militar.

“Cassaram ele, exilaram ele e mataram ele”, declarou.

Segundo Serafim, a frase sobre uma possível execução foi repetida três vezes por JK nos últimos anos de vida. O episódio mais marcante ocorreu no dia 8 de agosto de 1976, apenas duas semanas antes da morte do ex-presidente.

Na véspera, um boato chegou às redações de jornais afirmando que Juscelino já teria morrido em um acidente de carro. Preocupado, Serafim acionou familiares para confirmar a informação e descobriu que JK estava vivo, em sua fazenda, em Luziânia (GO). No dia seguinte, ao buscá-lo no aeroporto para o enterro de um amigo, ouviu diretamente do ex-presidente:

“Estão querendo me matar”.

Novas perícias colocam versão oficial em xeque

A morte de JK aconteceu em 22 de agosto de 1976, na Via Dutra, próximo a Resende (RJ). Durante décadas, a versão oficial sustentou que o Chevrolet Opala em que o ex-presidente viajava teria sido atingido por um ônibus da Viação Cometa.

No entanto, um novo laudo pericial citado na entrevista aponta que não há evidências de colisão direta entre o ônibus e o carro de JK. Para Serafim, o automóvel teria sofrido sabotagem mecânica.

“Mexeram no carro. Não resta dúvida”, afirmou.

Ele acredita que houve adulteração no sistema de freios do veículo logo após uma parada em um hotel-fazenda em Resende, onde JK e o motorista Geraldo Ribeiro estiveram antes da viagem final.

O caso ganhou ainda mais mistério após relatos de que o dono do hotel possuía ligações com o Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão central de espionagem da ditadura militar.

“Os homens de 64”

Ao comentar quem poderia estar por trás do suposto atentado, Serafim evitou citar nomes específicos, mas apontou diretamente para setores militares ligados ao golpe de 1964.

“Quando me refiro àqueles que mataram Juscelino, eu costumo dizer: os homens de 64”, afirmou.

Segundo ele, havia resistência dentro das Forças Armadas à ascensão política de JK desde os anos 1950. Entre os nomes citados está o general Golbery do Couto e Silva, considerado um dos principais estrategistas do regime militar.

Serafim relembrou ainda que JK foi preso após o AI-5, em dezembro de 1968, e passou dias incomunicável em um forte militar em Niterói.

“Ele sofreu muito”, disse.

Processo cheio de falhas e desaparecimento de provas

Em 1996, Serafim conseguiu reabrir oficialmente o caso da morte de JK. Segundo ele, ao analisar os documentos do processo original, encontrou inúmeras inconsistências.

Entre elas, a ausência de fotografias dos corpos, mudanças de peritos durante a investigação e exames invalidados judicialmente por falta de assinaturas.

“Não existe uma foto dos mortos. Disseram que foi por ordem superior”, relatou.

Outro ponto levantado por Serafim envolve o motorista do ônibus da Cometa, Josias Gomes. De acordo com ele, o motorista teria sido pressionado a assumir a culpa pelo acidente em troca de dinheiro.

“O próprio Josias contou que ofereceram uma mala cheia de dinheiro para ele dizer que bateu no carro do JK. Ele nunca aceitou”, afirmou.

Josias acabou absolvido pela Justiça por unanimidade.

Caso continua cercado de dúvidas

Passados quase 50 anos da morte de Juscelino Kubitschek, a versão oficial segue sendo questionada por familiares, pesquisadores e antigos aliados do ex-presidente.

As novas revelações reacendem um dos episódios mais controversos da história política brasileira e reforçam suspeitas de que a ditadura militar possa ter eliminado uma das figuras mais populares da República.

Para Serafim Jardim, a conclusão sempre foi clara:

“Não foi acidente. Mataram Juscelino.”

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Editor Ourinhos Online