Desinformação de gravata: quando a fake news vem da grande imprensa – Por Rodolfo Fiorucci
O debate público sobre eleições e desinformação estava travado num consenso: o problema são as redes sociais com as fake news, os robôs e a Inteligência Artificial gerando deepfakes. Esse diagnóstico não está errado, mas é incompleto e, pior, serve de cortina de fumaça. O eleitor precisa entender que as narrativas mais perigosas de 2026 não chegam apenas via redes sociais. Chegam assinadas, com logotipo de emissoras e jornais de prestígio, que emprestam credibilidade institucional à distorção.
Em março de 2026, a GloboNews exibiu um PowerPoint sobre o escândalo do Banco Master que apresentava como os quatro nomes mais próximos do banqueiro Daniel Vorcaro figuras ligadas ao governo e à esquerda: Lula, Guido Mantega, “PT da Bahia” e Gabriel Galípolo. Nesse quadro, o rosto de Lula e a bandeira do PT apareciam em destaque, colados à imagem de Daniel Vorcaro. A mensagem era clara: Lula e o governo tinham ligações com o Banco Master.
No entanto, o que foi omitido é tão revelador quanto o que foi mostrado. Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, que receberam R$ 5 milhões do operador financeiro de Vorcaro, não apareceram na ilustração. O PL (de Bolsonaro), partido mais citado nas investigações, também foi ignorado. O mesmo aconteceu em relação a Nikolas Ferreira, que fez pelo menos 10 viagens em jatinho particular cuja empresa tem sociedade de Vorcaro. Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central escolhido por Jair Bolsonaro, cuja gestão autorizou o Banco a existir e não interferiu em nenhum momento no escancarado movimento de corrupção do banco, é figura ocultada do powerpoint. Já o senador Ciro Nogueira, que se autodefiniu como “amigo de vida” de Vorcaro e apresentou a “Emenda Master” para aumentar o limite do FGC – o mecanismo usado no esquema -, aparece distante, quase fora do quadro, sem menção ao seu partido. Naquele momento, ainda não havia aparecido a ligação íntima que Flávio Bolsonaro tinha com o dono do Master, mas a ausência de quem recebeu dinheiro, usou jatinho, recebia mesada e fechou os olhos para as falcatruas do banco é muito pior do que uma deepfake ou fakenews de tios de whatsapp.
Para a GloboNews, encontro de Lula com Vorcaro, que não resultou em nenhum benefício ao banqueiro, mas pelo contrário, na liquidação do Banco e prisão de Vorcaro pouco tempo depois, pareceu mais grave do que todas as evidências de relações viscerais de políticos da direita bolsonarista e fisiológica com o Caso Master. Até jornalistas que trabalharam por décadas na própria Globo, como Neide Duarte (42 anos) e Ari Peixoto (34 anos), classificaram o episódio como “dia da vergonha” e lamentaram a transformação do canal em “arma política”.
Mas a fábrica de distorções e mentiras não parou por aí, fazendo reviver um dos piores momentos da história da imprensa brasileira, que foi a Lava Jato. Na ânsia de blindar o senador Flávio Bolsonaro (pré-candidato a presidente), o cidadão (não chamarei de jornalista) Lauro Jardim teve a coragem de publicar um artigo chamado “Vorcaro também financiou filmes sobre Lula e Temer”, em plena implosão da mentira que Flávio Bolsonaro vinha contando ao Brasil, de que não conhecia o dono do Banco Master e que nunca tinha conversado com ele. Sim, depois de um áudio do próprio senador Flávio Bolsonaro pedindo faraônicos R$ 61 milhões ao banqueiro, chamando-o de irmão e dizendo que estaria sempre ali disponível para o amigo, Lauro Jardim correu para lançar uma informação sem lastro, sem provas e sem qualquer verificação, de que o documentário de Lula, feito por um dos maiores cineastas da história do cinema norte americano, Oliver Stone, também teria, supostamente, financiamento do banco. Alegação essa negada pelo cineasta que garantiu processar o cidadão que escreveu o artigo e quem mais divulgasse essa mentira.
O jornal O Globo, de maneira pusilânime, ao cair a fachada de bom moço de Flávio Bolsonaro, tratou, imediatamente, de dar “tons de notícia séria” a uma mentira que passou a servir a toda horda bolsonarista para rebater as acusações a Flávio Bolsonaro, erigindo uma falsa equiparação entre os pré-candidatos. O dano já estava feito. A análise de dados do DataFórum mostrou que, entre as publicações sobre o tema, o eixo de “equiparação e defesa” concentrou 55,3% das interações, enquanto os desmentidos sobre o suposto financiamento ao filme representaram apenas 7,5%.
A desinformação da grande imprensa tem três características que a tornam mais perigosa que a das redes sociais: Credibilidade institucional emprestada, Funcionamento por omissão seletiva (escolhe quem vai colocar no powerpoint e quem não, por exemplo) e Timing eleitoral (a publicação de Lauro Jardim surgiu exatamente no momento em que os áudios do The Intercept colocavam Flávio Bolsonaro no centro de uma negociação milionária com Vorcaro). O efeito prático foi aliviar o desgaste de um escândalo que atingia diretamente o bolsonarismo. A Globo realmente não aprende. Depois de todo ataque que sofreu durante o governo Bolsonaro e continua a sofrer da claque, posiciona-se como salvaguarda da candidatura do filho 01 de Bolsonaro.
A partir daqui escrevo para aquele eleitor que, independente de preferência política, é digno, moral e ético. Você não precisa gostar de Lula para se preocupar com esse tipo de produção de desinformação da grande imprensa. O problema não é quem está sendo protegido ou atacado num dado episódio, mas que o eleitor está sendo privado de informação proporcional e amparada em fatos para formar sua própria opinião. Quando a imprensa filtra os fatos segundo interesses editoriais não declarados, o prejuízo é do cidadão, independente do seu voto.
Se o país estava receoso quanto ao peso da inteligência artificial, robôs, impulsionamento de fake news e algoritmos tendenciosos nas eleições de 2026, pode ficar tranquilo, pois parte da grande imprensa que se diz séria produziu um revival (Lava-Jato parte 2) de uma espécie de gabinete do ódio, para alimentar as redes com desinformação. Que os robôs, os algoritmos e a inteligência artificial se cuidem, pois encontraram uma concorrência efetiva no processo de produção de fake news no Brasil.
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