O Jornal Dobrado- Por Paula Hammel
Conheço uma pessoa que pede desculpas quando chora. A primeira vez que reparei nisso achei curioso. Depois comecei a achar triste, embora mais tarde acabasse me acostumando, como acontece com quase tudo o que se repete diante dos olhos sem fazer muito alarde. Ela enxuga o rosto depressa quando percebe alguém entrando no aposento e procura ocupar-se imediatamente de qualquer coisa. Certa vez começou a dobrar um jornal que já estava dobrado; noutra ocasião perguntou se a janela continuava aberta, embora estivesse fechada desde o começo da noite. Tudo isso enquanto murmura um “já passa”, dito num tom que parece menos destinado a consolar a si mesma do que a tranquilizar os outros.
Durante algum tempo imaginei tratar-se de um costume particular. Mais tarde comecei a reconhecer cenas parecidas em outros lugares. Uma senhora conhecida de minha família interrompeu as lágrimas para servir café às visitas, e ninguém recusou a xícara. Um homem que conheci anos atrás sorria sempre que mencionava as próprias dificuldades e repetiu tanto aquele gesto que, depois de algum tempo, o sorriso acabou parecendo parte natural da conversa. Talvez certas atitudes se tornem aceitáveis justamente porque persistem.
O curioso é que as pessoas lidam melhor com sofrimentos que não perturbam demasiadamente a ordem comum das coisas. O cansaço, por exemplo, chega até a despertar respeito. Há quem atravesse perdas consideráveis sem abandonar horários, sem faltar a compromissos e sem alterar o tom da própria voz, o que costuma produzir admiração sincera. A tristeza prolongada é diferente. No começo recebe atenção, palavras amáveis e pequenas delicadezas. Depois passa lentamente a constranger o ambiente, embora ninguém diga semelhante coisa em voz alta, porque as pessoas educadas quase nunca confessam as pequenas crueldades que praticam — talvez por educação, talvez por covardia.
Lembro-me daquela pessoa de quem falei no início. Permanecia em silêncio enquanto a casa seguia entregue aos ruídos habituais da noite, até que, em determinado momento, ouviu passos no corredor, levantou a cabeça rapidamente e pediu desculpas por ainda estar chorando antes mesmo que alguém dissesse qualquer coisa. A cena permaneceu comigo menos pelo sofrimento do que pelo constrangimento que havia nela. Percebia-se ali o esforço cansado de quem entendia que a própria dor começava a ultrapassar o tempo tolerado pelos outros.
No dia seguinte ninguém voltou ao assunto. Falaram do calor, do preço das frutas e de uma notícia política sem importância. Ela também conversou normalmente e até sorriu algumas vezes, embora evitasse sustentar o olhar dos outros durante muito tempo, como fazem às vezes aqueles que passaram horas demais acordados e acabam percebendo, tarde demais, que certas tristezas alteram imperceptivelmente o modo como os outros nos olham.
Paula H’ammel
Apoie o Ourinhos.Online⬇️
https://apoia.se/ourinhosonline
