História recontada Marighella previa agitação popular em Marília Por João Teixeira
“… as safras, lavouras e proprietários [fazendeiros] estão empenhados em bancos: de 1964 a 1967 a Carteira de Empréstimo e Descontos à Lavoura aumentou 400%… com a ligação do governo com o imperialismo tal quadro não poderá ser mudado… não devemos nos iludir e acreditar que isso leve à tomada de posição da burguesia em relação ao imperialismo…”
A avaliação, considerada pessimista, foi feita por Carlos Marighella, comandante da Ação Libertadora Nacional (ALN), durante uma reunião com membros da chamada Ala Marighella em Marília, no dia 15 de agosto de 1968. O registro consta em documentos do serviço secreto do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).
O material inédito foi revelado no livro San Ernesto de La Higuera, de João Teixeira, e traz ainda outro trecho significativo:
“… os donos da terra justificam tal disparidade culpando o povo, o salário mínimo, as reivindicações populares como causa geradora de insucessos e, antevendo possíveis agitações, ampliam o aparelho da repressão policial-militar…”
À época, Marighella — considerado o “inimigo número um” da ditadura civil-militar brasileira (1964–1985) — preocupava autoridades diante da possibilidade de intensificação da luta revolucionária. Ele foi morto em uma emboscada policial na noite de 4 de novembro de 1969.
No livro Clandestina, a guerrilheira Ana Corbisier relata episódios vividos ao lado de Marighella. Segundo ela, transportou o líder diversas vezes até um apartamento em Higienópolis, em São Paulo, localizado próximo à sede da Polícia Federal.
Em uma dessas ocasiões, contou ter sido perseguida por uma viatura militar, conseguindo despistá-la após manobras arriscadas. A sensação, segundo descreve, foi de “ter renascido”.
O clima de tensão era generalizado. O general Canavarro Pereira teria se alarmado ao descobrir que Marighella estaria escondido em uma residência no Jardim Europa, a poucos metros do comando do II Exército. A casa foi transformada em um ponto fortemente armado.
Em um episódio curioso e tenso, um objeto lançado próximo ao local foi confundido com explosivo, levando soldados a abrirem fogo e ferirem uma pessoa. Havia ainda o temor de que o guerrilheiro estivesse armado com granadas presas ao corpo, o que aumentava o nervosismo antes da operação que resultou em sua morte.
Os documentos também revelam reflexões estratégicas da militância:
“… o parque industrial regional é insignificante, sem características da luta do proletariado…”
“… precisamos acabar com o mito de alguns supostos líderes esquerdistas de se tentar usar na região a mesma linguagem e terminologia usadas no Nordeste…”
Ainda segundo os registros, havia críticas à importação de discursos desconectados da realidade local:
“… é comum algum ‘intelectual’ ler qualquer coisa a respeito do Nordeste e vir até aqui falando em parceria, barracão e outras coisas por nós desconhecidas.”
As obras que resgatam a história do oeste paulista, assinadas por João Teixeira e Ana Corbisier, têm lançamento previsto para breve na região
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