Uma cidade que vira as costas: a urgência das políticas públicas emancipatórias em Ourinhos

Enquanto o Carnaval se aproxima e o debate sobre o apoio municipal a festas populares revela a fragilidade do fomento à cultura, um silêncio ainda mais eloquente e grave persiste em Ourinhos: o abandono das políticas sociais estruturantes. A recente e corajosa proposta protocolada pela Associação Amigos Solidários e pela Missão Sendo Um à Prefeitura Municipal não é apenas um documento; é um espelho que reflete décadas de omissão.

Inspirados no trabalho humanitário do padre Júlio Lancellotti, os ofícios nº 017/2025, 003/2026 e 018/2025 vão direto ao cerne do que uma sociedade que se pretenda civilizada deve priorizar: frente de trabalho, qualificação profissional, moradia digna e acompanhamento integral em saúde. São pilares básicos para qualquer política que vise não apenas gerir a pobreza, mas superá-la. A proposta é um manual de decência e, até o momento, parece ser um manual ignorado.

Importante destacar que o ofício nº 018/2025 foi protocolado no dia 30 de outubro de 2025 na Câmara Municipal de Ourinhos, além dos já citados anteriormente, endereçados ao Executivo. Infelizmente, nem o Executivo nem a Câmara Municipal demonstraram, até o momento, qualquer interesse em colocar em prática aquilo que já foi evidenciado em outras cidades do Brasil como sendo o correto a se realizar.

É sintomático e profundamente crítico que uma entidade da sociedade civil, que há anos sustenta sozinha — com esforço heroico e recursos escassos — o acolhimento à população em situação de rua, precise sinalizar o óbvio. Precise ensinar, passo a passo, ao poder público municipal, nas figuras do prefeito Guilherme Gonçalves (Podemos) e da Secretaria de Assistência Social, que seu papel é justamente esse: criar pontes para a autonomia, desenvolvendo uma política pública libertadora, voltada ao social.

O que a proposta da Missão Sendo Um evidencia é um vácuo histórico. Ourinhos não possui, de fato, uma política pública emancipatória para sua população mais vulnerável. Existem, quando existem, ações pontuais e assistencialistas, que enxugam gelo no inverno, mas não impedem o próximo dilúvio de exclusão. Cuidar de pessoas, dar voz a quem foi invisibilizado, oferecer trabalho e moradia: esses não são ideais revolucionários. São direitos humanos fundamentais, previstos na Constituição, que se tornam letra morta na gestão da coisa pública ourinhense.

No acompanhamento que faz da população em situação de rua, em um inverno recente, ainda na administração de Lucas Pocay, foi possível comprovar o descaso para com os mais vulneráveis: sem política consistente, perdida e sem saber o que fazer, em meio a um inverno rigoroso, a administração abrigou essa população na FAPI, em galpões abertos, onde normalmente se acomodam bois e cavalos.

O poder público em Ourinhos é moroso, quando não ausente, na destinação de orçamento, equipe técnica e vontade política para transformar vidas. A mensagem subliminar é cruel: o que estrutura a vida não pode.

A “expectativa de diálogo” colocada pela entidade soa como um apelo diante de um muro. Enquanto a administração municipal não compreender que políticas sociais sérias não são gasto, mas investimento em segurança, saúde pública, economia local e, acima de tudo, em dignidade, continuaremos a ter uma cidade de duas faces: uma que produz vídeos apelativos e vazios e outra que sobrevive, esquecida, nas sombras.

A proposta está sobre a mesa. Ela é clara, viável e inspirada no que há de mais nobre no trabalho social. Agora, a bola está com o prefeito Guilherme Gonçalves e seu secretariado. Vão arquivá-la como mais um ofício esquecido em uma gaveta ou vão, finalmente, honrar o lema de governar “para quem mais precisa”?

Ourinhos precisa inovar. Precisa acolher de verdade. E isso começa não com discursos, mas com a coragem de firmar convênios, destinar recursos e trabalhar junto com quem, há anos, faz, na prática, o trabalho do Estado. O tempo da omissão já passou. A cidade espera por ações, não por novas justificativas para a inércia.

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Editor Ourinhos Online