A solidão masculina Por Luiz Bosco
Homem: eu sei que a solidão que você sente não é piada de Internet. A constatação é do sentimento de que nós, homens, estamos cada vez mais deslocados de nosso entorno, sem conseguir estabelecer relações afetivas e autênticas e com desinteresse cada vez maior em tentar novos relacionamentos amorosos. Tenho consciência da apropriação das explicações sobre esse fenômeno pelo discurso conservador, atribuindo à suposta degeneração do feminino. Infelizmente, o conservadorismo tem sido bem sucedido em tomar problemas reais e lhes dar explicações e soluções distorcidas, em conformidade com a ideologia dominante. Por outro lado, há figuras progressistas que apenas ridicularizam um problema como esse (da solidão masculina), rotulando-o como discurso “redpill”, de homens tóxicos etc. Isso faz com que homens se aproximem do discurso conservador, pois estão encontrando respostas por lá. Ao abordarmos problemas emocionais, precisamos ter sensibilidade e aceitar que aquele problema é real, pois só assim a pessoa se sentirá acolhida e poderá se dispor a se ajudar e procurar ajuda. Precisamos admitir que há pressões sociais cada vez mais intensas para que homens e mulheres apresentem aparência estritamente dentro de certos ideais; para que apresentem estatuto social cada vez mais elevado e impossível de se atingir. E a grande maioria que não consegue estar nesses padrões desumanos, fica tolhida de estabelecer relações as mais diversas. Para os homens, fica a sensação de ter falhado, pois é equívoco presente em nossa formação a ideia de que devemos sempre estar entre os melhores e sermos dominadores. Por outro lado, desconstruir isso não é simples, até porque ao fazê-lo, colocamo-nos fora dos padrões impostos de masculinidade e, consequentemente, a solidão se aprofunda, tanto pela rejeição feminina, quanto pela masculina. A solidão não deve ser ridicularizada, nem relativizada. Somos seres sociais e nos humanizamos através do outro. Quando somos desprovidos dessa socialização essencial, somos fadados a uma desumanização. O discurso que esteve na moda a respeito da solitude é uma justificativa ideológica para a solidão estabelecida pelo individualismo neoliberal. O neoliberalismo prima pelo esvaziamento da coletividade e, eficientemente, tem nos convencido de que estarmos sozinhos é melhor. Mas a realidade é que, sim, homens e mulheres estão sofrendo pela solidão. Para os homens, o caminho que vejo é não ter medo da própria sensibilidade e de estabelecer laços comunitários, em que as relações se pautam por objetivos comuns. Não é na obsessão por relações românticas que se encontrará um lenitivo para o problema, mas na busca por se estabelecer comunidades com propósitos, o que as carrega de sentidos. Para aqueles em que isso pode estar chegando a níveis intoleráveis, não tenha receio em buscar ajuda profissional. Luiz Bosco Sardinha Machado Jr. Psicólogo e professor universitário.
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