Quem tem medo do professor de Humanas? Os que têm medo de pensar. – Por Mauricio Saliba
Poucas obras envelheceram tão bem quanto o livro As Nuvens, de Aristófanes. Escrita no século V a.C., a comédia apresenta Estrepsíades, um pai endividado que procura desesperadamente um responsável pela decadência moral do filho. A culpa, naturalmente, não poderia ser dele. Tampouco das escolhas familiares, da educação oferecida ou dos valores cultivados dentro de casa. O culpado era muito mais conveniente: seu professor, Sócrates e seu ensino. Que fazia com que os jovens aprendessem a pior das coisas para qualquer autoridade estabelecida: pensar.
Mais de dois mil anos se passaram e o cenário continua estranhamente familiar. Mudaram-se os personagens, mas o roteiro permanece quase idêntico. Hoje, o “Sócrates” da vez atende pelo nome de professor de Filosofia, Sociologia, História ou qualquer outro representante das Ciências Humanas. Se um estudante começa a questionar costumes, desafia verdades familiares ou manifesta opiniões diferentes das esperadas, logo surge o diagnóstico definitivo: “isso é influência do professor.”
É curioso como esse professor, frequentemente tratado como desvalorizado, mal remunerado e incapaz de despertar interesse nos alunos, transforma-se subitamente em um hipnotizador de massas quando um adolescente resolve discordar dos pais. Durante anos ouvimos que a escola perdeu autoridade, que os estudantes não respeitam mais os docentes, que ninguém presta atenção às aulas. Mas basta um filho voltar para casa perguntando por que as coisas são como são para descobrir que o professor possui poderes quase sobrenaturais de lavagem cerebral. É uma promoção profissional que chega sempre tarde e apenas para servir de acusação.
A lógica dessa narrativa é igualmente impressionante. Um professor que encontra um estudante duas vezes por semana possuiria mais influência do que anos de convivência familiar, do que milhares de horas diante das redes sociais, do que algoritmos cuidadosamente programados para moldar comportamentos, do que influenciadores digitais, igrejas, grupos políticos, séries, músicas e plataformas de vídeo. Se isso fosse verdade, talvez a educação brasileira fosse o sistema mais eficiente do planeta.
A culpa lançada sobre as Humanidades revela, na verdade, um velho mecanismo social: quando uma geração não compreende a seguinte, procura imediatamente um bode expiatório. É mais confortável imaginar um “doutrinador” escondido na sala de aula do que admitir que jovens crescem, entram em contato com diferentes perspectivas e desenvolvem autonomia intelectual. Culpar o professor evita uma tarefa muito mais difícil: perguntar por que determinadas certezas já não convencem tão facilmente.
Nesse aspecto, Aristófanes continua atual. Em sua peça, o verdadeiro problema nunca foi Sócrates. O problema era o desconforto provocado por alguém que ensinava a perguntar antes de obedecer, a examinar antes de aceitar e a argumentar antes de repetir. A sátira mostra justamente o medo que o pensamento desperta quando ameaça o conforto das verdades estabelecidas.
Naturalmente, professores possuem posições políticas, filosóficas e morais. Como médicos, engenheiros, empresários, jornalistas, juízes, religiosos ou qualquer outro profissional. A neutralidade absoluta nunca passou de uma confortável ficção. A diferença é que apenas os professores de Humanas costumam ser acusados de transformar qualquer opinião em uma conspiração pedagógica. Ninguém acusa um professor de Matemática de doutrinar quando convence um estudante de que dois mais dois continuam sendo quatro, mas basta um professor de Filosofia perguntar “por quê?” para surgir a suspeita de um atentado contra a civilização.
Talvez isso ocorra porque as Ciências Humanas trabalham justamente com aquilo que incomoda: as relações de poder, a desigualdade, a história das instituições, os conflitos sociais, as ideologias e as contradições da vida coletiva. Elas não oferecem conforto; oferecem perguntas. E perguntas têm um defeito insuportável: obrigam respostas melhores do que aquelas que sempre pareceram suficientes.
Talvez por isso a morte de Sócrates nunca tenha terminado. Seu julgamento pode ser localizado historicamente na Atenas do século IV a.C., mas sua condenação continua sendo repetida sempre que uma sociedade transforma o pensamento crítico em ameaça e o questionamento em crime moral. Mata-se Sócrates toda vez que se tenta silenciar quem convida outros a refletirem sobre a própria existência, sobre a justiça, sobre a verdade ou sobre o mundo em que vivem. Não se envenena apenas um filósofo; tenta-se envenenar a própria possibilidade de pensar.
No fundo, essa talvez seja a maior permanência entre Atenas e o presente. Continuamos procurando culpados para aquilo que o pensamento revela. Afinal, destruir quem faz perguntas sempre pareceu mais simples do que responder a elas. E enquanto houver alguém disposto a ensinar que nenhuma autoridade está acima do exame racional, sempre haverá outro Estrepsíades disposto a jurar que a culpa é, mais uma vez, do professor de Humanas.
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