Precisamos de espaços de acolhimento – Por Luiz Bosco
Toda pessoa precisa se sentir pertencente a uma coletividade concreta, da qual participe plena e efetivamente, com envolvimento afetivo e sustentação para o desenvolvimento de uma visão de mundo, isto é, um posicionamento frente aos fatos, pessoas e objetos.
Não é suficiente nos sentirmos parte de grandes e abstratos coletivos, como “gênero humano”, “a esquerda”, “os cristãos”. Tem sua importância, contribuindo com características generalizantes que participam da definição de nossa identidade.
Ao participarmos de um ambiente no qual predominam certas características das pessoas que ali se encontram, nossa tendência é nos adaptarmos, ainda que, dependendo de nossas orientações valorativas, essa adaptação seja mera aparência, como quando uma pessoa progressista se vê entre familiares conservadores e opta pelo silêncio frente a questões sensíveis.
Se um grupo no qual nos inserimos consegue nos envolver emocionalmente, convence-nos com facilidade de que devemos fazer parte dele, adotando sua moral, seus hábitos e ideologia.
A construção de identidades ancoradas em uma grupalidade, que seja concretamente próxima, afetiva e com uma cultura própria, é parte da formação plena de nossas características mais humanas.
A base emocional fornecida pelo agrupamento imediato é indispensável para o ser humano, animal cívico nos dizeres de Aristóteles. Não se trata aqui da civilidade abstrata da modernidade, nem somente de uma racionalidade. Inclui a esta, mas é também uma vivência material, que se dá no contato humano para além do domínio privado.
O círculo familiar nos provê de afetividade indispensável, porém precisamos também dessa vivência fora do âmbito privado, na convivência “cívica”, ou seja, no espaço público.
Não é difícil a constatação do esvaziamento desse espaço, com a escassa oferta de possibilidades de convivência fora do nicho familiar. Locais devotados à cultura e ao lazer parecem definhar, enquanto se multiplicam igrejas e bares. Para o bem e para o mal, estes são domínios da expansão afetiva em várias formas: pessoas se confraternizam, desabafam, solidarizam, expõem e constroem opiniões, recebendo alguma forma de acolhimento em meio à aridez da realidade do capitalismo do século XXI.
Uma pergunta que se impõe: quais alternativas o campo progressista tem produzido? A necessidade não é de ações com eventos, caracterizadas pelo contato fugaz, que se encerra com uma socialização pontual. Precisamos de espaços de convivência rotineira, nos quais nos sintamos acolhidos em nossas dores e diferenças.
Há uma percepção difusa de que construir laços sociais no campo progressista é difícil, demandando se submeter a um conjunto complexo de exigências morais. O mesmo pode se dizer das igrejas e, por que não, dos bares, mas nestes há o acolhimento inicial que cativa, a expressão emocional intensa que alivia o cotidiano. A esquerda parece fechada em seus pequenos círculos, sem abertura às demandas emocionais das pessoas comuns, pronta a julgar palavras e gestos.
Escrevo isso com plena consciência de que é uma generalização. A intenção é alertar para a carência de práticas de acolhimento claras, às quais as pessoas vejam como uma possibilidade concreta para acessar e, talvez, vir a fazer parte. Quando se está mal, pensa-se em ir para a igreja buscar ajuda ou ao bar afogar as mágoas. Não parece haver opções a isso.
Concluo compartilhando que esse texto é minha homenagem ao professor Marcos Corrêa. Minha vivência com ele foi de ter sido acolhido, inserindo-me no campo progressista do município de Ourinhos, assim como prestando-me solidariedade em momentos difíceis. Está fazendo falta, pois precisamos urgentemente que a esquerda reassuma a postura acolhedora.
Luiz Bosco Sardinha Machado Jr. é psicólogo e professor universitário.
Apoie o Ourinhos.Online⬇️
https://apoia.se/ourinhosonline
