VORCARO E SEUS “AMIGOS AMESTRADOS”: elites, poder e domesticação institucional – Por Maurício Saliba
O caso envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro não é um escândalo isolado. É apenas mais uma peça visível de uma engrenagem antiga e persistente: a forma como as elites econômicas brasileiras operam para capturar, influenciar e neutralizar o poder público.
No Brasil, riqueza raramente anda sozinha. Ela busca companhia, e não qualquer companhia, mas aquela capaz de garantir proteção. Juízes, promotores, delegados, parlamentares, ministros. Para os muito ricos, não basta cumprir a lei: é preciso ter sempre um “amigo” influente a quem recorrer na hora do aperto.
A lógica é simples e brutal: quem tem dinheiro tenta cercar-se de poder. Nos níveis mais altos, isso significa cultivar relações com autoridades de Estado. Não necessariamente por meio de corrupção explícita, que é mais arriscada, mas por um mecanismo mais sofisticado e difícil de rastrear: a domesticação. Assim, nesse ambiente, prevalece uma máxima silenciosa: todo milionário pretende ter um juiz, um promotor e um delegado de estimação.
Convites para festas exclusivas, jantares luxuosos, viagens, experiências inacessíveis ao cidadão comum. Tudo isso cria vínculos. Não vínculos jurídicos, mas vínculos sociais e, sobretudo, psicológicos. Aos poucos, constrói-se um ambiente em que a autoridade pública deixa de ser apenas uma função institucional e passa a integrar um círculo de convivência. E, uma vez dentro desse círculo, a independência se torna mais difícil.
Como já dizia o velho Karl Marx: “A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então consideradas dignas de veneração e respeito. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência, em seus trabalhadores assalariados.”
Não é preciso haver um pedido explícito, uma troca direta, um favor comprovado. O simples pertencimento já altera percepções, suaviza julgamentos, desloca limites. A influência mais eficaz é justamente aquela que não precisa se declarar.
Essa prática não é nova. Desde a Antiguidade, o problema é conhecido. Platão já alertava que governantes deveriam se afastar da riqueza para não se tornarem seus reféns. A advertência permanece atual porque o risco permanece o mesmo: quando o poder político se aproxima demais do poder econômico, a imparcialidade se dissolve.
É importante dizer: amizade não é crime. Relações sociais entre autoridades e empresários, por si só, não configuram ilegalidade. Mas reduzir o problema à ausência de prova criminal é uma forma conveniente de ignorar o essencial. O que está em jogo não é apenas o que pode ser punido, é o que pode ser influenciado.
E a elite brasileira sabe disso. Do interior às grandes capitais, repete-se o mesmo padrão: aproximar, seduzir, integrar. Trata-se de uma cultura profundamente enraizada, marcada por clientelismo, personalismo e uma histórica confusão entre o público e o privado. Uma herança que remonta à escravidão e às formas informais de nobreza que estruturaram o país.
A persistência dessas práticas não pode ser compreendida sem considerar o peso de nossa formação histórica. O Brasil foi estruturado sob um regime escravocrata que naturalizou hierarquias rígidas, dependência pessoal e a concentração extrema de poder nas mãos de poucos. Nesse contexto, consolidou-se uma cultura de clientelismo em que proteção e favores substituíam direitos, e a lealdade pessoal valia mais do que normas impessoais.
Como apontou Raymundo Faoro ao analisar o patrimonialismo brasileiro, o Estado frequentemente se confundiu com interesses privados das elites, perpetuando relações de submissão e privilégio. Essa herança não desapareceu com a modernização institucional: ela se reconfigurou, mantendo viva a lógica segundo a qual o acesso ao poder depende menos da cidadania e mais da proximidade com aqueles que o detêm.
Nesse cenário, o poder não se exerce apenas por instituições, mas por relações. O caso Vorcaro expõe exatamente isso: não um desvio excepcional, mas a normalidade de um sistema. Um sistema em que a elite econômica não apenas acumula riqueza, mas trabalha ativamente para moldar o ambiente institucional ao seu redor.
O mais preocupante é que essa dinâmica raramente gera escândalo duradouro. Ela é absorvida, naturalizada, esquecida. Afinal, não há flagrante, não há prova definitiva, não há condenação imediata. Há apenas indícios, proximidades, coincidências, e uma sensação difusa de que algo está fora do lugar. Mas está tudo funcionando exatamente como foi historicamente construído para funcionar.
A pergunta, portanto, não é se há ilegalidade comprovada. A pergunta é mais profunda: até que ponto o Estado brasileiro consegue resistir à influência sistemática de suas elites?
Apoie o Ourinhos.Online⬇️
https://apoia.se/ourinhosonline
