Apenas existir Por Paula Hammel

A manhã surgiu abafada, esmaecida, com uma tonalidade clínica que não anuncia alívio algum; o mesmo tom se instala por dentro e, nesse clima suspenso, a mente insiste em interrogar o instante: por que este momento, por que desta forma, por que ainda.

As boas intenções comparecem disfarçadas de recuo, repetem-se em negativas educadas, compõem um inventário polido de desistências; soma-se a isso certa indecência silenciosa: permitir-se abatimento enquanto o corpo segue ativo, como se a vitalidade exigisse entusiasmo compulsório. Esse acordo não assino, tampouco presto reverência a divindades do colapso por continuar aqui, porque existir não pede desculpas.

Resistir soa concessão; presença não exige acordo. Estar permite pensar, atravessar cenas impróprias, dividir silêncios desconfortáveis. Não se trata de suportar o tempo, porém, de atravessá-lo com lucidez sem pedir licença à pressa alheia.

Dizem que embelezar a asfixia resulta inútil. Concordo. Mesmo assim, o ar entra fundo, não por esperança, mas por teimosia, pois cada fôlego equivale a um salto sem mapa, a um mergulho sem promessa de superfície — talvez seja isso que acabam chamando de coragem quando falta termo mais honesto.

O consolo mais difundido reaparece como refrão gasto: tudo termina; frase macia para quem evita agir; travesseiro moral para os desalentos antigos. O problema não reside no fim, reside no uso dessa ideia como abrigo definitivo, onde, então, o pensamento se deita e adormece.

Às vezes, uma cena se impõe — noite específica, lua inteira, riso contido escapando sem plateia — ou uma batida inesperada seguida de consentimento quase inaudível; nesses horários, a indiferença coletiva pesa mais, e cada qual protege o próprio receio como quem fecha janelas durante tempestade. O aperto alheio passa despercebido; regra tácita ou simples hábito. Não sei.

De qualquer forma, algo insiste em se deslocar; uma informação favorável, um toque sem cobrança, um recado capaz de aquietar o peito e conter essa vontade persistente de se desprender e flutuar para longe.

No meu cantinho predileto, canalizando a música que agora escuto e as palavras que tricoto sem nelas pensar, torço arduamente para que eu fique roxa de felicidade com o passar dos dias, mais otimista, ofegante de uma felicidade que não cura, mas que remedia docemente, como aspirina infantil dada por mãe.

Paula H’ammel

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Editor Ourinhos Online