Os conservadores e a nostalgia de um tempo que nunca existiu Por Maurício Saliba

Você já deve ter ouvido alguém que se autoproclama “conservador”. Em geral, diz sê-lo porque defende os valores do cristianismo e, sobretudo, da família. Repete fórmulas prontas, slogans de internet e palavras de ordem que soam morais, mas raramente são acompanhadas de reflexão histórica, política ou filosófica. Trata-se de um conservadorismo confuso, piegas, emocional e reativo, que opera mais por medo do que por convicção racional.

Esses ditos “conservadores” foram convencidos por gente muito mais esperta, que aposta justamente na sua inocência política. São estimulados a travar uma luta quixotesca entre o bem e o mal, como se o mundo estivesse dividido entre famílias virtuosas e forças demoníacas empenhadas em destruí-las. Não há aqui ingenuidade por parte dos que formulam essa narrativa: ela é uma estratégia política muito bem pensada, eficaz justamente porque simplifica o mundo, cria inimigos abstratos e mobiliza afetos primários como medo, ressentimento e culpa.
É um erro imaginar que os grupos que criaram essa guerra imaginária sejam lunáticos ou desorganizados. Pelo contrário: trata-se de uma pauta articulada, com financiamento, linguagem própria, ocupação estratégica das redes sociais e um discurso moral que serve como cortina de fumaça para interesses econômicos e políticos muito concretos. A inocência está na base social que repete esse discurso sem perceber a quem ele realmente serve.
Quando se pergunta a essas pessoas o que significa, afinal, ser conservador, as respostas são vagas e circulares. “Defender a família”, “defender os valores”, “defender a moral”. Mas o que exatamente se quer conservar? Em que período histórico esse modelo ideal de sociedade teria existido? Quais relações sociais, políticas e econômicas o sustentavam? Essas perguntas raramente são feitas, e, quando são, causam desconforto.
Tomemos o exemplo mais recorrente: “queremos conservar a família”. Mas qual família? O modelo patriarcal clássico, herdado do período colonial e monárquico? A família em que o homem detinha autoridade legal sobre a esposa e os filhos, em que as mulheres eram juridicamente tuteladas, excluídas da vida pública e economicamente dependentes? Será que as mulheres que hoje se dizem conservadoras desejam, de fato, abdicar de direitos civis, autonomia profissional e liberdade de escolha? Querem que suas filhas tenham seus casamentos decididos pelos pais? Se assim o desejarem, são livres para organizar suas próprias vidas dessa maneira, o que não lhes dá o direito de impor esse modelo a toda a sociedade.
O problema central não é a existência de valores tradicionais, mas a tentativa de universalizá-los coercitivamente, como se fossem naturais, eternos e indiscutíveis. Isso ignora algo elementar: a família não é uma instituição fixa, mas uma forma histórica, que sempre se transformou conforme as condições econômicas, culturais e jurídicas de cada época. Defender a família como se houvesse apenas um modelo legítimo é menos conservador do que dogmático.
Mas o discurso não se limita à família. Para esses “conservadores”, que não sabem claramente o que nem por que querem conservar, o grande inimigo é a esquerda. Uma esquerda quase mítica, onipresente e todo poderosa, que supostamente domina a educação, a cultura, as artes, a mídia e o próprio Estado. Curiosamente, essa mesma esquerda que já controlaria tudo ainda precisaria, segundo a narrativa, destruir a família para finalmente governar.
A contradição é evidente. Se a esquerda já domina todas as instâncias de poder, por que ainda precisaria recorrer a uma suposta engenharia moral para consolidar seu domínio? E mais: por que destruir a família seria condição para governar? O argumento geralmente apresentado é que uma sociedade sem família se tornaria dependente do Estado. Mas, se esse Estado já estaria sob controle da esquerda, o projeto já estaria realizado. Gramsci é frequentemente citado não como autor, mas como palavra mágica, alheia ao seu vocabulário e à sua teoria. Poucos sinais revelam com tanta clareza a ignorância teórica quanto a citação recorrente de Gramsci por aqueles que jamais o leram. O inimigo, portanto, precisa ser mantido sempre à espreita, nunca plenamente vitorioso, para justificar o estado permanente de mobilização moral.
Essa narrativa não explica nada: ela apenas produz medo. Serve para deslocar a atenção dos problemas reais, desigualdade social, precarização do trabalho, concentração de renda, captura do Estado por interesses privados, para uma guerra cultural abstrata, em que questões complexas são reduzidas a slogans morais. Enquanto se combate uma esquerda fantasmagórica, reformas que retiram direitos sociais, trabalhistas e previdenciários avançam sem resistência, muitas vezes apoiadas pelos mesmos que se dizem defensores da família.
No fundo, esse conservadorismo inocente não conserva nada de essencial. Não conserva vínculos comunitários, não conserva justiça social, não conserva dignidade material. Conserva apenas uma ordem simbólica que legitima hierarquias, silencia conflitos e impede a reflexão crítica. Ao transformar a política em cruzada moral, abre mão da própria política.
Ser conservador, em sentido forte, exigiria conhecer a história, compreender o que foi ganho e perdido ao longo do tempo, discernir o que merece ser preservado e o que precisa ser transformado. O que vemos, porém, é outra coisa: uma adesão acrítica a um discurso pronto, produzido por elites que jamais viverão as consequências das políticas que defendem.
A verdadeira inocência desses “conservadores” não está em seus valores declarados, mas em não perceberem que, enquanto lutam contra moinhos de vento, são conduzidos, com notável eficiência, a defender interesses que nada têm a ver com família, fé ou moral.

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Editor Ourinhos Online