O Palco e a Cidade – Quando a política vira entretenimento

O jeito de fazer política mudou. Não se trata apenas de uma adaptação aos novos tempos digitais, mas de uma transformação profunda – e perigosa – nos objetivos e métodos de quem governa. Em Ourinhos, e em tantas outras cidades Brasil afora, testemunhamos a ascensão de uma prática que substitui a administração pública pela produção de conteúdo, o diálogo pelo algoritmo, e a solução de problemas pela busca incessante de engajamento.

A figura do prefeito Guilherme Gonçalves (Podemos) é sintomática deste fenômeno. Seu governo parece ser conduzido prioritariamente através de vídeos no TikTok, onde a encenação substitui a execução, e o anúncio superficial prevalece sobre a obra consistente. Colocar um sinal de internet na UPA, apresentado como “grande obra”, é a caricatura perfeita dessa lógica: um gesto mínimo, viralizável, que mascara a continuidade do caos na saúde pública. A cidade real, com suas enchentes sem solução, escolas carentes e transporte público deficitário, permanece na penumbra, enquanto a cidade virtual brilha com a luz efêmera dos likes.

Essa não é uma estratégia nova, tampouco uma invenção local. É o reflexo de uma política desqualificada que se espalha pelo país, onde holofotes valem mais que resultados. As redes sociais, por sua natureza, não buscam solução; alimentam-se de conflito, indignação e polarização. Um buraco na rua, um paciente em uma maca, uma fila interminável – tudo vira material para a performance da indignação, que atrai visualizações, mas não traz nenhum avanço concreto. O político, outrora julgado pela eficiência de sua gestão, passa a ser medido por seus índices de engajamento. E neste perverso jogo, a crise deixa de ser um problema a ser resolvido para se tornar um ativo político, uma fonte inesgotável de conteúdo e monetização.

As consequências são gravíssimas para a democracia e para a cidade enquanto espaço coletivo. Quando o palco virtual se torna prioritário, a cidade física vira mero cenário para disputas ideológicas vazias. Para que serve um Plano Diretor participativo, um debate técnico sobre drenagem urbana ou um projeto integrado de mobilidade? Essas discussões são complexas, demoradas e não viralizam. Exigem escuta, acolhimento, diálogo com a população e coragem para enfrentar problemas estruturais. A nova prática, no entanto, despreza tudo isso. Coloca o gestor no papel de um “deus” que tudo sabe, tratando o pensamento crítico e a participação cidadã como empecilhos. A política urbana se reduz a uma sucessão de espetáculos, e o cidadão, de interlocutor, vira mero espectador – ou melhor, um potencial clique.

O caso de Ourinhos serve de alerta para toda a região. É preciso enxergar com clareza essa armadilha que confunde popularidade com eficácia, gritaria com gestão, e entretenimento com administração pública. A precariedade que atinge os cidadãos não está nas redes; está nas ruas, nas casas, no cotidiano de quem depende dos serviços essenciais.

Eleger bons representantes – prefeitos, vereadores, governadores – é, mais do que nunca, um dever coletivo de quem almeja um mundo melhor. Exige de nós, eleitores, um olhar que vá além do feed, que questione o vazio por trás do viral e que valorize a solução silenciosa em detrimento do escândalo barato. Nossa tarefa é resgatar a política do palco e devolvê-la à praça pública, onde os problemas são reais e as soluções, construídas com trabalho, técnica e diálogo verdadeiro. Sem gritaria. Sem vazios. Distante dos cliques fáceis e do exibicionismo vazio. O futuro de Ourinhos, e de nossas cidades, depende dessa escolha.

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Editor Ourinhos Online