Ilha dos cachorros (2018): a estética da exclusão e o poder de decidir quem vive e quem morre -Por Bruno Yashinishi
Em Ilha dos Cachorros (2018), Wes Anderson revisita com a delicadeza de um relojoeiro e o rigor de um moralista uma das questões mais sombrias da modernidade: a naturalização do extermínio. Por trás da estética impecável e da paleta simétrica, o filme é uma alegoria cruel sobre o funcionamento dos regimes totalitários e sobre como o poder, político, midiático e corporativo, define quem merece viver e quem pode ser descartado.
O enredo se inicia com uma justificativa sanitária: os cães, acusados de portar uma doença contagiosa, são banidos para uma ilha de lixo. O pretexto é a “segurança pública”, mas o gesto é político, é o início de um processo de purificação social que ecoa as lógicas dos grandes regimes genocidas do século XX. Assim como no Holocausto, o discurso da limpeza e da ordem encobre a necropolítica, no sentido dado por Achille Mbembe, a administração da morte como instrumento de governo. Anderson transforma o isolamento dos cachorros em uma metáfora para o confinamento de grupos considerados impuros, inúteis ou ameaçadores à estabilidade do Estado.
O prefeito Kobayashi, com seu autoritarismo de aparência paternalista, encarna o arquétipo do líder totalitário. Seu controle sobre a informação, sua manipulação das massas e sua transformação do medo em consenso lembram as táticas propagandísticas dos regimes fascistas. A proibição do afeto, expressa na separação entre humanos e cães, é aqui uma forma de controle emocional, o governo só se mantém quando destrói os vínculos que poderiam gerar empatia.
Ao projetar essa distopia “vinte anos no futuro”, Anderson fala menos do amanhã e mais do presente. Seu Japão fictício é um espelho da contemporaneidade, em que o medo do outro é reativado sob novas máscaras: imigrantes, pobres, minorias étnicas ou ideológicas. A ilha de lixo é o território dos descartáveis, o espaço onde se concentram aqueles cuja vida foi desvalorizada. Mbembe diria que são vidas “vividas à beira da morte”, existências sem lugar dentro da máquina produtiva e moral do Estado.
A genialidade do filme está em tensionar a beleza de sua forma contra o horror de seu conteúdo. As composições simétricas, o ritmo calculado e os enquadramentos limpos parecem ordenados demais, quase cúmplices da própria lógica autoritária que denunciam. Anderson usa a harmonia visual como uma ironia, a estética da pureza revela, em última instância, o desejo de controle absoluto. Essa contradição faz de Ilha dos Cachorros uma obra profundamente política, porque entende que o fascismo não se manifesta apenas pela violência explícita, mas também pela organização da vida e da imagem.
A busca do menino Atari por seu cão Spots é o fio humanista que rasga o tecido frio da burocracia da morte. O gesto de enfrentar o poder e de resgatar o “indesejado” é a resistência mínima contra a desumanização. Não há heroísmo glorificado, mas um ato de solidariedade que devolve sentido à convivência.
Ao fim, Ilha dos Cachorros não é apenas uma fábula sobre animais abandonados, mas uma reflexão amarga sobre a capacidade humana de hierarquizar vidas. Anderson nos convida a reconhecer, sob o verniz da fantasia, o eco de Auschwitz, dos campos de refugiados, das fronteiras que matam e das políticas que selecionam quem pode respirar. É um filme sobre o que resta de humanidade quando o Estado decide que alguns corpos valem menos do que outros, e sobre a urgência de resistir, mesmo que seja com um simples latido.
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