O ritmo da pausa Por Paula Hammel
Observo a rua pela janela. O vento arrasta folhas secas, o aroma da terra molhada invade a cozinha. O mundo continua indiferente, porém, meus passos possuem sentido próprio. Suspendi gestos, interrompi respirações apressadas, deixei cada emoção se instalar antes de emergir. Não abandonei o ato de escrever; preservei o silêncio para que ele retorne vigoroso, singular, como rio que cresce apenas quando o inverno termina.
Vocábulos descansam entre lembranças que surgem como fantasmas e feridas ainda abertas. Não os apresso. Cada interlúdio rega raízes invisíveis, organiza confusão, transforma o vazio em matéria pronta para incendiar. O silêncio soa mais intenso do que qualquer cidade, segurando cordas, percussão e sopros ocultos nas sombras.
Meus dedos coçam, mas contêm impulso. A vida exige alinhamento: gestos, sentimentos, ideias. Escrever não se limita a palavras; envolve sangue, suor, memória. Sangue, suor e memória não se apressam; demandam tempo, cuidado, abandono momentâneo, preparando terreno para vigor e clareza.
A luz atravessa a cortina, desenhando linhas sobre a mesa. Até os objetos respiram, hesitam, aguardam. Cada sombra se desloca lentamente. Contemplo detalhes banais como se fossem essenciais: rangido do armário, tilintar da xícara, sopro do refrigerador sobre o piso — meus ouvidos convergem para algo maior. No entanto, sem forma definida.
Não se trata de fraqueza. Toda pausa organiza atitudes, textos e sentimentalismo para chegarem com precisão e própria verdade. Entre movimento e espera, entre silêncio e retomada, nasce aquilo que não se anuncia, porém, que acha uma trilha. Uma luz infiltrando frestas na parede: discreta, inevitável, impossível de conter.
A mão toca o papel. Meu corpo hesita; minha mente se dispersa. A escrita permanece alerta. Recebe fragmentos, memórias apagadas, pulsos despercebidos. Entre linhas, vibrações explodem; respiração muda. A beleza surge inesperada, enlouquecida, e arrebatadora.
Enquanto observo a rua, o aroma da chuva misturado ao pó, o canto distante de pássaros, a textura do prédio vizinho, uma parede que descasca lentamente, percebo que nada se perdeu. O intervalo armazenou ventania. A quietude guardou consigo energia. Dentro de mim, escrever irradiará a força de um universo inteiro, contido nesta galáxia que tanto percebe.
Daqui a pouco, não será apenas escrita. Será presença, meu testemunho; será aquilo cujo nascimento tranquilo se recusou a ser pequeno. Nenhuma delicadeza permanecerá invisível. Meu instante de espera: a densidade de tudo que me atravessa, atravessou e que atravessará – às ordens para se manifestar.
Compreendam: pausar não significa desistir. Pode ser limpar o terreno, pintar um recomeço o qual ninguém pode prever. Quem ousa sentar, sentir e escrever com coragem, descobre cada traço, memória, vigor. Uma vida inteira.
Aqui retornarei. Por fim, cada linha, cada espaço e cada marca pulsará com mais frescor. Não perderei a elegância filosófica intimista e poética do que fui. Do tudo que sou. E do que jamais serei.
Paula Hammel
Apoie o Ourinhos.Online⬇️
https://apoia.se/ourinhosonline
